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Jovem atleta em disparada na pista à noite, luz dramática
Foto: Unsplash

Saúde da Mulher

Ciclo menstrual e treino: o que a ciência (ainda) sabe

A ideia de periodizar o treino pelas fases do ciclo virou moda. A evidência, porém, é mais humilde do que os aplicativos vendem: o efeito médio da fase sobre a performance é trivial, mas a variação de uma pessoa para outra é enorme. Traduzindo: talvez importe para você, talvez não. Aqui está o que os estudos mostram, sem hype.

7 min de leitura
~0,06 tamanho de efeito (trivial) da fase folicular inicial sobre a performance, na meta-análise de 78 estudos McNulty et al., Sports Medicine, 2020
6% dos estudos de ciência do esporte (2014 a 2020) foram feitos só com mulheres Cowley et al., Women in Sport and Physical Activity Journal, 2021
45% das atletas já deixaram de fazer um treino planejado por motivos ligados ao ciclo Ekenros et al., Frontiers in Physiology, 2022 (1.086 atletas)

As três fases, em uma frase cada

O ciclo menstrual costuma ser dividido em três momentos. A fase folicular começa no primeiro dia da menstruação e vai até a ovulação, com o estrogênio subindo. A ovulação é o pico hormonal, por volta do meio do ciclo. A fase lútea vem depois, com progesterona alta, e termina na menstruação seguinte. A hipótese que virou popular é simples: se os hormônios mudam tanto, o treino deveria mudar junto. A pergunta honesta é: mudar quanto, e para quem?

O que a melhor evidência realmente diz

A referência central é a meta-análise de McNulty e colegas, publicada em 2020 na revista Sports Medicine, que reuniu 78 estudos sobre fase do ciclo e performance em mulheres com ciclo regular. O resultado surpreende quem espera uma resposta dramática: o efeito médio da fase sobre a performance foi trivial. A performance ficou levemente reduzida na fase folicular inicial (os primeiros dias, durante a menstruação) comparada às outras fases, com tamanho de efeito de cerca de menos 0,06, algo tão pequeno que, na prática, quase não se distingue de zero.

O ponto que os aplicativos não colocam no anúncio: os próprios autores descrevem o efeito como trivial e altamente variável entre estudos e entre pessoas. Por isso recomendam uma abordagem individual, não uma regra geral aplicada a todas as mulheres. McNulty et al., Sports Medicine, 2020

Ou seja: periodizar o treino pelo ciclo é uma ideia promissora, mas hoje repousa sobre evidência fraca. A média diz pouco. O que pode importar é a sua resposta, medida ao longo de vários ciclos, não a de uma planilha genérica.

Sintomas são reais, e isso é diferente de performance

Existe uma distinção importante. Uma coisa é a fase mudar a performance medida em laboratório. Outra é a mulher se sentir pior e treinar diferente por causa disso. Cólica (dismenorreia) e sintomas pré-menstruais são comuns e podem, sim, atrapalhar. Numa pesquisa com 1.086 atletas de 57 esportes, cerca de metade relatou impacto negativo percebido na performance nos dias da menstruação, e 45% já deixaram de fazer um treino planejado por motivos ligados ao ciclo. Curiosamente, apenas 18% ajustavam o treino de forma organizada em função do ciclo.

A leitura sensata: se cólica ou fadiga pré-menstrual derrubam a sua semana, faz todo sentido ajustar volume e intensidade nesses dias. Isso não é periodização sofisticada, é escutar o corpo e planejar em torno dos sintomas que você de fato tem.

Ferro, menstruação e um risco que passa batido

A perda de sangue mensal aumenta a necessidade de ferro. A deficiência de ferro é notavelmente mais comum em mulheres, e estimativas em atletas do sexo feminino costumam variar de 15% a 35% com estoques baixos, ou seja, até cerca de um terço em alguns grupos. Ferro baixo derruba transporte de oxigênio e aparece como cansaço e queda de rendimento, sobretudo em esportes de resistência. Isso não se resolve com aplicativo de ciclo. Se há fadiga persistente, o caminho é exame e avaliação, não suplementar por conta própria.

Este texto é informativo e não substitui consulta. Diagnóstico de anemia, dosagem de ferro, tratamento de cólica intensa, alterações do ciclo ou dúvidas sobre contracepção e menopausa são assunto de médico e ginecologista. A Darwin não prescreve dieta, remédio nem conduta clínica.

Por que sabemos tão pouco

Parte da resposta é constrangedora: a ciência do esporte estudou principalmente homens. Uma auditoria de mais de 5 mil publicações entre 2014 e 2020 encontrou que só 6% dos estudos foram feitos exclusivamente com mulheres, e que mulheres eram apenas cerca de 34% de todos os participantes. Muitos protocolos evitavam mulheres justamente para não lidar com a variação hormonal do ciclo. O resultado é que boa parte do que se ensina como universal foi validado em corpos masculinos. É por isso que atletas de ponta passaram a cobrar mais pesquisa em público.

O que a elite faz (e por que não copiar a dose)

Seleções e clubes de ponta começaram a mapear o ciclo das atletas. A seleção feminina dos Estados Unidos, campeã da Copa do Mundo de 2019, monitorou o ciclo das jogadoras durante o torneio para ajustar sono, nutrição e carga, trabalho conduzido pela preparadora Dawn Scott com apoio de cientistas. E, em 2022, a velocista Dina Asher-Smith não terminou a final dos 100m no Campeonato Europeu por causa de cãibras que atribuiu à menstruação, e usou o microfone para pedir mais investimento em pesquisa.

Cuidado com a inveja de planilha. A elite tem genética rara, volume de treino enorme, equipe multidisciplinar e recuperação em tempo integral. Quando uma seleção rastreia o ciclo das atletas com uma preparadora dedicada e apoio científico, o custo desse monitoramento cabe no orçamento delas, não no seu dia de 24 horas com trabalho e família. Pegue o princípio (observar padrões e individualizar), não a dose (transformar cada dia do mês em protocolo). Princípio Darwin: elite não é igual a amador

Como agir sem virar refém do calendário

  • Registre por alguns ciclos. Anote sintomas, sono, energia e como o treino rendeu. Padrão só aparece com dados seus, ao longo do tempo.
  • Ajuste pelos sintomas, não pela teoria. Se a cólica derruba você, alivie a carga naqueles dias. Se você se sente bem, treine normal. Não force queda de rendimento que a média sequer confirma.
  • Trate ferro e fadiga como questão médica. Cansaço persistente pede exame, não suplemento por conta própria.
  • Desconfie de promessas fechadas. Nenhum app hoje prova que treinar mais na fase X rende mais. A evidência é fraca, e ser honesto sobre isso é parte do método.

A conclusão cabe em uma linha: o ciclo pode importar para o seu treino, mas de um jeito individual que só a sua observação revela. A ciência ainda está construindo essa resposta. Enquanto isso, o melhor plano é aquele que respeita como você de fato se sente, com acompanhamento médico quando o assunto é saúde.

Quem prova na prática

Seleção feminina dos EUA (USWNT) Campeã da Copa do Mundo de 2019

Monitorou o ciclo menstrual das jogadoras durante o Mundial na França para ajustar sono, nutrição e carga de treino, trabalho liderado pela preparadora Dawn Scott com apoio de cientistas do esporte. Lembrete: seleção de elite opera com equipe dedicada e recuperação integral, uma estrutura que amadores não têm.

Dina Asher-Smith Velocista britânica, campeã mundial dos 200m em 2019

No Campeonato Europeu de 2022, não terminou a final dos 100m por causa de cãibras que atribuiu à menstruação, e pediu publicamente mais investimento em pesquisa sobre o ciclo no esporte. Dias depois voltou à pista, classificou-se para a final dos 200m e terminou com a medalha de prata. Lembrete: o resultado de uma atleta de ponta reflete estrutura e genética que o amador não tem, sirva de inspiração, não de meta de calendário.

Perguntas frequentes

Vale a pena periodizar meu treino pelas fases do ciclo menstrual?

A ciência ainda não sustenta isso como regra geral. A maior meta-análise sobre o tema (McNulty et al., 2020, com 78 estudos) encontrou um efeito médio trivial da fase do ciclo sobre a performance, com variação enorme entre pessoas. Pode importar para você, mas isso só se descobre observando os seus próprios ciclos ao longo do tempo, não seguindo uma planilha genérica de aplicativo.

Meus sintomas menstruais atrapalham o treino. Isso é normal?

Sim, e é comum. Numa pesquisa com 1.086 atletas de 57 esportes, cerca de metade relatou impacto negativo percebido na performance durante a menstruação e 45% já deixaram de fazer um treino planejado por motivos ligados ao ciclo. Se cólica ou fadiga pré-menstrual derrubam a sua semana, faz sentido ajustar volume e intensidade nesses dias específicos.

Por que existe tão pouca pesquisa sobre mulheres no esporte?

Porque a ciência do esporte estudou principalmente homens. Uma auditoria de mais de 5 mil publicações entre 2014 e 2020 (Cowley et al., 2021) encontrou que só 6% dos estudos foram feitos exclusivamente com mulheres, e que elas eram apenas cerca de 34% de todos os participantes. Muitos protocolos evitavam mulheres justamente para não lidar com a variação hormonal do ciclo.

Sinto muito cansaço perto da menstruação. Devo tomar suplemento de ferro?

Não por conta própria. A menstruação aumenta a necessidade de ferro e a deficiência é mais comum em mulheres, mas cansaço persistente pede exame e avaliação médica, não suplementação sem orientação. Ferro em excesso também faz mal. A Darwin é informativa e não substitui médico ou ginecologista para diagnóstico e tratamento.

Se a seleção dos EUA rastreou o ciclo e ganhou a Copa, eu não deveria fazer igual?

Cuidado com a inveja de planilha. A elite opera com equipe multidisciplinar, recuperação em tempo integral e orçamento dedicado. Pegue o princípio (observar padrões e individualizar), não a dose (transformar cada dia do mês em protocolo). O melhor plano é o que respeita como você de fato se sente, com acompanhamento médico quando o assunto é saúde.

Referências

  1. McNulty et al. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine.
  2. Cowley et al. (2021). Invisible Sportswomen: The Sex Data Gap in Sport and Exercise Science Research. Women in Sport and Physical Activity Journal.
  3. Ekenros et al. (2022). Perceived impact of the menstrual cycle and hormonal contraceptives on physical exercise and performance in 1,086 athletes from 57 sports. Frontiers in Physiology.
  4. USWNT usou rastreamento do ciclo menstrual na Copa do Mundo de 2019 (Dawn Scott). Good Morning America / ABC News.
  5. Dina Asher-Smith diz que menstruação causou as cãibras que atrapalharam sua final dos 100m no Europeu de 2022. ESPN.
  6. Sim et al. (revisão). Deficiência de ferro em atletas do sexo feminino: prevalência e impacto na performance. Literatura sobre 15% a 35% de prevalência.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).