Recuperação
Proteína: quando e quanto
1,6 g/kg ou 2,2 g/kg? Janela anabólica de 30 minutos ou 2 horas? O consenso científico ficou mais claro nos últimos 5 anos.
A dose que funciona
A revisão de Morton et al. (2018, British Journal of Sports Medicine) com mais de 1.800 participantes encontrou que a síntese de proteína muscular se satura em torno de 1,62 g/kg de peso/dia para a maioria dos indivíduos. Ingestões acima desse limiar não geram músculo adicional em condições normais.
Para atletas de endurance: 1,4 a 1,7 g/kg/dia
Para atletas em déficit calórico: até 2,4 g/kg/dia (preserva massa magra)
Morton et al., "A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains", BJSM, 2018
A dose por refeição
O threshold de leucina para máxima estimulação da síntese muscular fica em torno de 0,24 g de proteína por kg de peso por refeição. Em torno de 20 g para um atleta de 83 kg; 25 a 40 g para atletas maiores ou mais velhos.
Distribuição ao longo do dia
Comer proteína em 4 a 6 refeições ao longo do dia gera resposta anabólica cumulativa maior do que concentrar toda a ingestão em 1 a 2 refeições. Café da manhã com boa fonte proteica (ovos, iogurte grego, queijo cottage) importa. A clássica torrada com margarina não estimula síntese muscular.
A janela anabólica: quanto tempo tenho?
A janela é real, mas mais ampla do que se pensava. Schoenfeld (2013) mostra que a janela de oportunidade se estende por pelo menos 2 horas após o treino. A prioridade de consumir proteína imediatamente pós-treino é maior quando o atleta treinou em jejum; se treinou após uma refeição com proteína 1 a 2 h antes, o pico de aminoácidos ainda está disponível.
O número de 1,62 g/kg/dia não é opinião, é o ponto de quebra estatístico da meta-regressão de Morton e colegas (2018), que reuniu 49 estudos e 1.863 participantes. Acima desse valor, o intervalo de confiança ainda sobe até 2,20 g/kg/dia, razão pela qual atletas de força em fase de ganho costumam mirar a faixa mais alta. Abaixo dele, praticamente ninguém satura a maquinaria de síntese muscular.
A conta por refeição vem de Moore e colaboradores (2015): cerca de 0,24 g de proteína por kg satura a síntese em adultos jovens, subindo para perto de 0,40 g/kg em idosos, que respondem menos ao mesmo estímulo. Para dar o gatilho, a posição oficial da ISSN (Jager et al., 2017) sugere doses com 700 a 3.000 mg de leucina, distribuídas a cada 3 a 4 horas ao longo do dia, o que na prática significa não concentrar tudo no jantar.
O peso da modalidade fica evidente no rúgbi: o levantamento dietético de Posthumus e colegas (2021) com 34 jogadores de Super Rugby na Nova Zelândia registrou ingestão média de 2,5 g/kg/dia entre os forwards e 2,4 g/kg/dia entre os backs, acima da recomendação de 1,5 a 2,0 g/kg para esportes de contato. No outro extremo da força pura, o islandês Hafthor Bjornsson puxou 501 kg no terra em 2 de maio de 2020, o primeiro humano a superar meia tonelada, marca sustentada por anos de protocolo de força e recuperação proteica de elite.
O que fica
O número que importa não é o maior possível, é o ponto de saturação: 1,62 g/kg/dia, segundo a meta-regressão de Morton com quase 1.900 atletas, que também mostra a faixa subindo até 2,2 g/kg/dia em fase de ganho de força. Acima disso, é dinheiro jogado fora. O resto é distribuição: 20 a 40 g por refeição, 4 a 6 vezes ao dia, incluindo o café da manhã, que costuma ficar só com torrada e margarina. Hafthor Bjornsson não chegou aos 501 kg no terra comendo proteína ao acaso; chegou com protocolo. A pergunta que fica não é "quanta proteína eu consigo comer", é "estou distribuindo o que já como do jeito que o músculo consegue aproveitar". Ajuste isso antes de comprar mais suplemento.
Quem prova na prática
Em 2 de maio de 2020 puxou 501 kg no levantamento terra, tornando-se o primeiro humano a passar dos 500 kg na modalidade, superando o recorde anterior de 500 kg de Eddie Hall.
Em 2 de março de 2019, no USAPL Arnold SBD Pro American, cravou 490 kg de agachamento raw (sem equipamento), recorde mundial da modalidade na época.
Estudo de Posthumus e colegas (2021) com 34 jogadores da liga Super Rugby registrou ingestão proteica média de 2,5 g/kg/dia nos forwards e 2,4 g/kg/dia nos backs ao longo de uma semana de competição, acima da faixa de 1,5 a 2,0 g/kg usual em esportes de contato.
Perguntas frequentes
Quantos gramas de proteína por quilo devo comer por dia?
A evidência aponta que cerca de 1,6 g/kg de peso corporal por dia otimiza o ganho de massa muscular para a maioria das pessoas que treinam força. Estudos sugerem pouco benefício adicional acima de 2,2 g/kg/dia. Valores maiores costumam ser recomendados apenas em fases de restrição calórica ou para atletas mais avançados.
A janela anabólica de 30 minutos após o treino é real?
A evidência atual aponta que a chamada janela anabólica é bem mais ampla do que os 30 minutos que se falava antes. Estudos sugerem que o que mais importa é a ingestão total de proteína ao longo do dia, e não o horário exato após o treino. Consumir proteína dentro de algumas horas em torno do exercício já é suficiente para a maioria.
Quanta proteína o corpo absorve por refeição?
Estudos sugerem que distribuir a proteína em 3 a 4 refeições, com cerca de 0,4 g/kg em cada uma, favorece a síntese muscular ao longo do dia. A ideia antiga de que o corpo aproveita no máximo 20 a 30 g por refeição foi flexibilizada: a evidência aponta que doses maiores também são usadas, só que de forma mais lenta.
Preciso de suplemento de proteína ou consigo pela comida?
A evidência aponta que a proteína da alimentação comum, como ovos, carnes, laticínios e leguminosas, atende à maioria das necessidades quando o consumo total está adequado. O whey e outros suplementos são apenas uma forma prática de completar a meta diária, sem vantagem mágica sobre a comida. A escolha depende de rotina, preferência e conveniência.
Referências
- Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, 52(6):376-384, 2018.
- Schoenfeld BJ, Aragon AA. How much protein can the body use in a single meal for muscle-building? Implications for daily protein distribution. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 15:10, 2018.
- Jager R, Kerksick CM, Campbell BI, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 14:20, 2017.
- Moore DR, Churchward-Venne TA, Witard O, et al. Protein ingestion to stimulate myofibrillar protein synthesis requires greater relative protein intakes in healthy older versus younger men. The Journals of Gerontology Series A, 70(1):57-62, 2015.
- Posthumus L, Macgregor C, Winwood P, et al. Competition Nutrition Practices of Elite Male Professional Rugby Union Players. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(10):5398, 2021.
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