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Ultramaratonista em silhueta numa crista de montanha ao entardecer
Foto: Unsplash

Provas & Calendário

Ultramaratona e ultra trail: as dificuldades, o treino e a preparação

Tudo acima de 42,195 km entra no território das ultras. Do 50k às 100 milhas, e do trail de montanha com muito desnível, o corpo enfrenta problemas que a maratona nem apresenta: estômago fechado, sono, pés destruídos e dano muscular que vira o verdadeiro limitador. Veja o que muda, como treinar e quais provas conhecer no Brasil e no mundo.

9 min de leitura
217 km Distância da Brazil 135+, com limite de 60 horas, pelo Caminho da Fé World's Marathons / Brazil 135
~10.000 m Desnível positivo acumulado na prova principal da UTMB, ao redor do Mont Blanc Wikipedia / UTMB Mont-Blanc
30 h Tempo de corte da Western States 100 (161 km); fivela de prata em menos de 24 h Western States Endurance Run (WSER)

O que é uma ultra (e o que é ultra trail)

Ultramaratona é qualquer prova a pé mais longa que a distância clássica da maratona, os 42,195 km. Na prática, o pelotão fala em faixas: 50k, 100k e o clássico 100 milhas (cerca de 161 km). Também existem provas por tempo, em que você corre um circuito e conta a distância acumulada em 6, 12 ou 24 horas.

Ultra trail é o recorte de montanha: percurso em trilha, com desnível acumulado alto (a soma de tudo que você sobe e desce). É o desnível, não só a quilometragem, que define a brutalidade. Uma prova de 100 milhas plana e uma de 100 milhas com 10.000 metros de subida são esportes quase diferentes.

Nas ultras longas, o principal fator que limita o desempenho não é o pulmão nem a economia de corrida: é o dano muscular acumulado, mais determinante que a capacidade aeróbia. Sports Medicine, revisão 2024

As dificuldades reais

O que trava um ultramaratonista raramente é o fôlego. É a soma de agressões que a maratona não chega a expor:

  • Gestão de energia: em corridas de muitas horas, manter o ritmo de reposição de combustível é decisivo. O corpo não consegue queimar tudo o que gasta, então largar rápido demais cobra caro no fim.
  • Estômago: com o sangue desviado para os músculos, a digestão desacelera. Náusea, cólica e enjoo são das causas mais citadas de abandono conforme a distância cresce.
  • Pés: a bolha é o problema médico mais comum em ultras. Horas de atrito, umidade e inchaço destroem a pele.
  • Sono: em provas que viram a noite, a privação de sono é quase inevitável e vira fator central nas ultras muito longas. Ver mal, cochilar em pé e alucinar são relatos frequentes.
  • Muscular: descidas longas geram contração excêntrica que rompe fibras. É por isso que a montanha destrói mais que o asfalto.
  • Mental: a cabeça decide. Saber fatiar a prova em pedaços pequenos e atravessar os momentos ruins costuma separar quem termina de quem para.
Distúrbios como hiponatremia (excesso de água sem sal) e lesão renal aguda transitória aparecem em provas de montanha. Nada aqui é recomendação individual: acompanhamento com médico e nutricionista é o caminho. Este texto informa, não prescreve.

O treino que a ultra exige

Preparar-se para ultra não é só correr mais. Os pilares que aparecem no treino de quem completa essas provas:

  • Volume progressivo: a base semanal sobe ao longo de meses, sem saltos bruscos, para o corpo aguentar tempo em pé sem quebrar.
  • Back-to-back: longos em dias seguidos (por exemplo, um sábado longo e um domingo longo) ensinam o corpo a correr cansado, simulando a fadiga acumulada da prova sem precisar de um único treino gigante.
  • Força: pernas e core fortes protegem contra o dano muscular das descidas e seguram a técnica quando o cansaço chega.
  • Desnível específico: quem corre ultra trail precisa treinar subida e, principalmente, descida, que é o que mais destrói. Se não há montanha por perto, escada, rampa e esteira inclinada ajudam.
  • Treino noturno: correr de lanterna de cabeça, adaptar o estômago à comida na madrugada e conhecer a própria sonolência antes do dia da prova.

Preparação: nutrição em prova, gear e crew

O plano de corrida em si é metade do jogo. A outra metade é a logística:

  • Combustível em movimento: testar no treino o que o estômago aceita depois de horas correndo. O que funciona parado nem sempre desce no km 120.
  • Gear: tênis rodado e sem novidade no dia, meias que não geram atrito, mochila de hidratação, lanterna com bateria reserva e camadas para o frio da altitude e da madrugada.
  • Crew e drop bags: nas provas que permitem, uma equipe de apoio nos postos e sacolas com troca de roupa, comida e material fazem diferença. Em provas semiautônomas, você carrega quase tudo.

Provas de referência no mundo

  • UTMB (Chamonix, França): a prova principal tem cerca de 170 km e perto de 10.000 metros de desnível positivo, dando a volta no Mont Blanc por França, Itália e Suíça. Primeira edição em 2003. Costuma acontecer no fim de agosto. Kilian Jornet venceu quatro vezes (2008, 2009, 2011 e 2022).
  • Western States 100 (Califórnia, EUA): 100,2 milhas (cerca de 161 km) na Serra Nevada, a mais antiga prova de 100 milhas em trilha do mundo, com primeira edição a pé em 1977. Acontece no último fim de semana cheio de junho. Corte de 30 horas para terminar, e fivela de prata para quem faz em menos de 24 horas.

Provas de referência no Brasil

  • Brazil 135+ (Serra da Mantiqueira, SP/MG): 217 km (135 milhas) pelo trecho mais duro do Caminho da Fé, com limite de 60 horas. Considerada uma das ultras mais difíceis do mundo. A edição costuma ocorrer em janeiro (próxima anunciada para 07 de janeiro de 2027).
  • KTR Ultra Serra da Canastra (MG): ultra trail em etapas na região da Serra da Canastra, com opções de 25, 50 e 100 km. A edição de 2026 ocorreu em maio, com formato de acampamento de vários dias.
  • Ultra BM, ex Bertioga-Maresias (litoral de SP): tradicional ultra de 75 km entre praias, estradas e trilhas do litoral paulista, disputada no formato solo e em revezamento.
O calendário exato muda a cada temporada. Sempre confirme distância, desnível, data e regras no site oficial do organizador antes de se inscrever. Datas de 2027 que ainda não foram divulgadas devem ser tratadas como estimativa pelo mês típico. Sites oficiais das provas

Como o Darwin acompanha uma temporada de ultra

O Darwin ajuda a organizar volume, longos back-to-back e blocos de força ao longo dos meses, importando suas atividades do Strava e do relógio para acompanhar a carga interna e sinalizar fadiga. Treino de montanha se baseia em técnicas consagradas: a ferramenta é o meio, você opera a máquina. Qualquer ajuste de alimentação e saúde deve passar por profissionais.

Quem prova na prática

Courtney Dauwalter EUA, ultra trail

Em 2023 tornou-se a primeira pessoa a vencer Western States 100, Hardrock 100 e UTMB na mesma temporada, o chamado Triple Crown, batendo o recorde da Western States com 15h29m34s.

Kilian Jornet Espanha, ultra trail

Venceu a UTMB quatro vezes (2008, 2009, 2011 e 2022). Em 2022 foi o primeiro a completar o percurso em menos de 20 horas, com 19h49m.

Perguntas frequentes

Qual a menor distância que já conta como ultramaratona?

Qualquer prova mais longa que a maratona (42,195 km) é ultra. Na prática, a menor faixa comum é o 50k. Acima dela vêm 100k, 100 milhas (cerca de 161 km) e provas por tempo, como as de 6, 12 e 24 horas, em que vale a distância acumulada.

Qual a maior dificuldade de uma ultra, além de correr muito?

Não costuma ser o fôlego. Em provas longas, o limitador dominante é o dano muscular acumulado, principalmente por causa das descidas. Somam-se a isso estômago fechado, bolhas nos pés, privação de sono nas provas que viram a noite e o desgaste mental de seguir por muitas horas.

O que é ultra trail e por que o desnível importa tanto?

Ultra trail é a ultra de montanha, feita em trilha. O que define a dificuldade não é só a quilometragem, mas o desnível acumulado, ou seja, o total que você sobe e desce. Uma prova de 100 milhas plana e uma de 100 milhas com 10.000 metros de subida exigem preparos bem diferentes, e as descidas longas são o que mais destrói o músculo.

O que é treino back-to-back e por que serve para ultra?

São longos em dias seguidos, como um treino longo no sábado e outro no domingo. A ideia é ensinar o corpo a correr já cansado, simulando a fadiga acumulada da prova sem precisar de uma única sessão gigante que aumentaria demais o risco de lesão.

Quais são boas provas para conhecer, no Brasil e no mundo?

No mundo, a UTMB (cerca de 170 km ao redor do Mont Blanc) e a Western States 100 (161 km na Serra Nevada) são referências. No Brasil, a Brazil 135+ (217 km pelo Caminho da Fé, uma das mais duras do mundo), a KTR Ultra Serra da Canastra (25, 50 e 100 km em formato de etapas) e a Ultra BM, ex Bertioga-Maresias (75 km no litoral paulista). Sempre confirme distância, desnível, data e regras no site oficial antes de se inscrever.

Referências

  1. UTMB Mont-Blanc, página oficial da prova
  2. Ultra-Trail du Mont-Blanc, Wikipedia (histórico, distância e vencedores)
  3. Western States Endurance Run, site oficial (WSER)
  4. Western States Endurance Run, Wikipedia (distância, corte e desnível)
  5. Brazil 135 Ultramarathon, World's Marathons (distância, corte e data)
  6. KTR Ultra Serra da Canastra, XKR Sports (organizador oficial)
  7. Ultra BM (Bertioga-Maresias), site oficial
  8. Decoding Ultramarathon: Muscle Damage, Sports Medicine (2024)

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).