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Corredor em trilha rumo a pico nevado, altitude épica
Foto: Unsplash

Clima & Ambiente

Altitude: o que muda no treino e como o corpo se adapta

Menos oxigênio no ar força o corpo a fabricar mais glóbulos vermelhos. É a base do treino em altitude. Mas a ciência mostra que o benefício depende de onde você dorme, onde você treina e quanto tempo fica lá em cima.

7 min de leitura
+9% aumento no volume de células vermelhas após 4 semanas em altitude (VO2máx subiu 5%) Levine e Stray-Gundersen, J Appl Physiol, 1997
13,4 s melhora no tempo de 5000 m só no grupo live high, train low Levine e Stray-Gundersen, J Appl Physiol, 1997
6 a 7% queda do VO2máx a cada 1000 m de ganho de altitude em atletas Wehrlin e Hallen, Eur J Appl Physiol, 2006

Por que o ar da montanha muda tudo

A fração de oxigênio no ar é sempre a mesma, cerca de 21 por cento, do nível do mar ao topo de uma montanha. O que cai com a altitude é a pressão barométrica. Menos pressão significa menos moléculas de oxigênio empurradas para dentro dos pulmões a cada respiração. O resultado é a hipóxia: menos oxigênio chegando ao sangue e aos músculos.

O corpo percebe essa queda quase na hora. A frequência respiratória e a cardíaca sobem em repouso, e o rendimento aeróbico cai. Em atletas bem treinados, o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) diminui na ordem de 6 a 7 por cento a cada 1000 metros de ganho de altitude, de forma aproximadamente linear em altitudes moderadas.

A adaptação: EPO, hemoglobina e mais glóbulos vermelhos

A resposta central à hipóxia é hormonal. Os rins liberam eritropoietina (EPO), o hormônio que ordena à medula óssea produzir mais glóbulos vermelhos. A EPO dispara nas primeiras horas em altitude, atinge o pico por volta de 24 a 48 horas e depois recua em direção ao valor de base ao longo de uma a três semanas.

O que importa para a performance não é o pico de EPO, e sim o produto final: um aumento na massa de hemoglobina (a quantidade total de hemoglobina no corpo, que carrega o oxigênio). Esse ganho é lento. A literatura indica algo em torno de 3 a 3,5 por cento de aumento após cerca de três semanas de exposição adequada, e a faixa de altitude considerada mais eficiente para isso fica entre 2000 e 2500 metros. Abaixo disso o estímulo é fraco. Muito acima, o sono e a recuperação pioram.

No estudo clássico de Levine e Stray-Gundersen, 39 corredores competitivos passaram por 4 semanas de campo em altitude. Os grupos que subiram aumentaram o VO2máx em 5 por cento, em proporção direta a um aumento de 9 por cento no volume de massa de células vermelhas. Levine e Stray-Gundersen, J Appl Physiol, 1997

Live high, train low: o modelo que venceu

Aqui está a virada de chave do estudo de 1997. Os pesquisadores compararam três estratégias ao longo das 4 semanas:

  • Live high, train low (viver alto, treinar baixo): dormir a 2500 metros e descer para treinar a 1250 metros.
  • Live high, train high (viver alto, treinar alto): morar e treinar a 2500 metros.
  • Live low, train low (controle): viver e treinar perto do nível do mar.

Os dois grupos de altitude ganharam massa de células vermelhas e VO2máx. Mas só o grupo live high, train low melhorou de fato o tempo na prova de 5000 metros, com um ganho de 13,4 segundos. A explicação é elegante: dormir alto entrega o estímulo hipóxico que fabrica sangue, enquanto treinar baixo permite manter a intensidade e a velocidade dos treinos, que caem quando você tenta treinar forte no ar rarefeito. Quem viveu e treinou alto ganhou sangue, mas perdeu qualidade de treino, e o saldo na prova foi neutro.

Essa é a lição prática. Viver alto e treinar alto (live high, train high) ainda aumenta a hemoglobina e é usado por muitos atletas, mas costuma sacrificar a intensidade dos treinos mais rápidos. O modelo live high, train low tenta capturar o melhor dos dois mundos.

Como se mede se funcionou: o teste do monóxido

Saber se um campo de altitude realmente aumentou a massa de hemoglobina não é chute. O padrão de referência é o método de reinalação de monóxido de carbono (CO-rebreathing), padronizado por Schmidt e Prommer em 2005. O atleta inala uma dose controlada e minúscula de monóxido de carbono por cerca de dois minutos. Como o CO se liga à hemoglobina de forma previsível, medir o quanto de hemoglobina foi ocupada permite calcular a massa total de hemoglobina do corpo, com erro típico em torno de 2 por cento. Se o tema do CO-rebreathing te interessa, ele merece um texto só dele, porque é o que separa marketing de adaptação real.

O lado ruim: hidratação e mal das montanhas

Altitude não é só ganho. O ar seco e a respiração acelerada aumentam a perda de água pela respiração, e a produção de urina sobe nos primeiros dias. A desidratação é comum e, além de atrapalhar o treino, é um fator de risco reconhecido para o mal agudo das montanhas.

O mal agudo das montanhas (MAM) costuma aparecer acima de 2500 metros, com sintomas que surgem 6 a 12 horas após a subida: dor de cabeça (o mais frequente), náusea, tontura, fadiga e sono ruim. A subida gradual e a hidratação adequada são as defesas mais consistentes. Vale lembrar que a sequência de noites mal dormidas nas primeiras noites em altitude também degrada a recuperação, o que reforça por que dormir alto e treinar baixo faz sentido apenas até certo ponto de altitude.

Nem todo mundo responde igual. Existe variabilidade individual grande no ganho de massa de hemoglobina após um mesmo campo de altitude. Se você planeja competir em altitude ou usar altitude como treino, converse com profissionais de saúde e educação física. Nada aqui substitui avaliação médica, e este texto não prescreve dieta, suplemento ou medicamento.

O resumo honesto

O que fica

A montanha não recompensa quem só sobe, recompensa quem sobe com plano: no estudo de Levine e Stray-Gundersen, dois grupos ganharam sangue subindo, mas só quem dormiu alto e treinou baixo baixou o tempo dos 5000 metros, por 13,4 segundos. A diferença inteira mora em manter a velocidade do treino intacta enquanto o corpo fabrica hemoglobina em silêncio, um processo que leva semanas, não dias, e que a EPO sozinha não garante. Antes de reservar um campo de altitude pensando em recorde, vale perguntar: o plano protege a intensidade do treino, ou só troca o ar que você respira?

Perguntas frequentes

Quanto tempo em altitude preciso para ganhar hemoglobina?

A evidência sugere pelo menos cerca de três semanas de exposição por no mínimo 12 horas por dia, na faixa de 2000 a 2500 metros, para gerar ganhos aeróbicos relevantes. O aumento de massa de hemoglobina observado costuma ficar em torno de 3 a 3,5 por cento após esse período. É um processo de semanas, não de dias.

O que é live high, train low e por que funciona melhor?

É dormir em altitude moderada (por volta de 2500 metros) e descer para treinar em altitude baixa (por volta de 1250 metros). Dormir alto entrega o estímulo de hipóxia que fabrica glóbulos vermelhos, enquanto treinar baixo permite manter a intensidade e a velocidade dos treinos. No estudo de Levine e Stray-Gundersen de 1997, só esse grupo melhorou o tempo de prova de 5000 metros.

Vou competir em altitude sem me aclimatar. O que esperar?

Uma queda no rendimento aeróbico. O VO2máx cai na ordem de 6 a 7 por cento a cada 1000 metros de ganho de altitude, e provas de resistência acima de dois minutos tendem a ficar mais lentas até o corpo se ajustar. A recomendação prática é chegar com bastante antecedência para aclimatar, ou aceitar que o tempo de prova será mais lento do que ao nível do mar.

Qual altitude é a ideal para um campo de treino?

A literatura aponta a faixa de 2000 a 2500 metros como a mais eficiente para aumentar a massa de hemoglobina. Abaixo disso o estímulo de hipóxia é fraco demais. Muito acima, o sono e a recuperação pioram e a intensidade dos treinos cai, o que reduz o saldo final.

Referências

  1. Levine BD, Stray-Gundersen J. Living high-training low: effect of moderate-altitude acclimatization with low-altitude training on performance. J Appl Physiol. 1997;83(1):102-112.
  2. Living high-training low (texto completo), American Physiological Society
  3. Schmidt W, Prommer N. The optimised CO-rebreathing method: a new tool to determine total haemoglobin mass routinely. Eur J Appl Physiol. 2005;95(5-6):486-495.
  4. Wehrlin JP, Hallen J. Linear decrease in VO2max and performance with increasing altitude in endurance athletes. Eur J Appl Physiol. 2006;96(4):404-412.
  5. Garvican-Lewis LA et al. Time course of the haemoglobin mass response to altitude (revisão dose-resposta), PMC
  6. Acute Mountain Sickness, StatPearls, NCBI Bookshelf

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).