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Açúcar branco em uma tigela escura sob luz lateral dramática, evocando o consumo de açúcar e seus efeitos no organismo
Foto: Unsplash

Nutrição & Metabolismo

O que o açúcar faz no seu corpo, órgão por órgão

Esqueça o debate genérico de vilão ou aliado: aqui é sobre o que a molécula faz no fígado, no pâncreas, na boca e até no cérebro quando o consumo crônico de açúcar livre ultrapassa o que o corpo processa bem, órgão por órgão, com a evidência que sustenta cada afirmação.

6 min de leitura
< 10% (idealmente < 5%) Limite de energia diária vinda de açúcares livres recomendado pela OMS, cerca de 25 a 50 g por dia numa dieta de 2000 kcal OMS, Guideline: Sugars intake for adults and children, 2015
26% Aumento no risco de diabetes tipo 2 em quem bebe mais bebidas açucaradas, em metanálise com mais de 310 mil pessoas Malik et al., Diabetes Care, 2010
2,75x Risco de morte cardiovascular em quem obtém 25% ou mais das calorias de açúcar adicionado, comparado a menos de 10% Yang et al., JAMA Internal Medicine, 2014

O que a glicose faz no sangue, refeição após refeição

Toda vez que você come algo com carboidrato, a glicose no sangue sobe e o pâncreas libera insulina para direcionar essa glicose para dentro das células do músculo, do fígado e do tecido adiposo. Isso é fisiologia normal, não um problema. A questão aparece quando esse ciclo se repete em excesso, dia após dia, ano após ano, num corpo que já acumula gordura visceral: as células passam a responder cada vez menos à insulina, um estado chamado resistência à insulina. O pâncreas tenta compensar produzindo mais insulina, até que, em muitas pessoas, essa compensação falha e a glicose de jejum começa a subir, o caminho clássico até o pré-diabetes e o diabetes tipo 2.

Isso não acontece por causa de uma colher de açúcar isolada. Acontece pelo padrão crônico: excesso calórico repetido, sedentarismo e ingestão alta de açúcares livres, categoria que a OMS define como açúcares adicionados a alimentos e bebidas pelo fabricante, pelo cozinheiro ou pelo consumidor, além dos açúcares naturalmente presentes em mel, xaropes e sucos, mas que exclui explicitamente o açúcar intacto dentro da fruta inteira.

O fígado e a frutose: uma rota metabólica diferente

Sacarose, o açúcar de mesa, é metade glicose e metade frutose. A glicose é usada por praticamente qualquer célula do corpo. A frutose segue outro caminho: é captada quase exclusivamente pelo fígado, via transportador GLUT5, e ali pode virar glicogênio, lactato ou, quando os estoques do fígado já estão cheios, ser convertida em gordura por um processo chamado lipogênese de novo.

O experimento mais citado sobre esse mecanismo é o de Kimber Stanhope e colegas, da Universidade da Califórnia em Davis. Em um ensaio controlado com adultos de 40 a 72 anos e sobrepeso, os participantes beberam por dez semanas bebidas adoçadas com frutose ou com glicose, nas mesmas calorias. Apenas o grupo da frutose apresentou aumento de gordura visceral, queda de sensibilidade à insulina e maior produção hepática de gordura, mesmo com ganho de peso semelhante entre os dois grupos. O endocrinologista Robert Lustig, da UCSF, usou achados como esse para argumentar que o excesso crônico de frutose livre funciona como fator de risco para a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica.

Isso não transforma fruta em vilã. A própria definição de açúcares livres da OMS exclui a frutose e a glicose intactas dentro da fruta inteira: a fibra e a matriz celular retardam a absorção e aumentam a saciedade, e não existe evidência de sobrecarga hepática por comer maçã, banana ou laranja. O risco descrito por Stanhope e Lustig vem do açúcar livre em forma concentrada e líquida, como refrigerante, suco industrializado e xarope de milho rico em frutose, não da frutose que chega ao corpo junto com fibra, água e micronutrientes.

A boca: o elo causal mais sólido de todos

Entre todos os efeitos do açúcar no corpo, a cárie dentária é o que tem a relação mais forte e mais bem estabelecida com o açúcar livre, segundo a própria OMS. Uma revisão sistemática encomendada pela organização para embasar sua diretriz de 2015 encontrou associação positiva entre consumo de açúcar e cárie em 42 dos 50 estudos analisados em crianças e nos 5 estudos analisados em adultos, com evidência de qualidade moderada mostrando que a cárie é consistentemente menor quando o consumo de açúcares livres fica abaixo de 10% da energia diária, com benefício adicional abaixo de 5%.

Bebidas açucaradas: o alimento com associação mais consistente a peso e diabetes

Bebidas adoçadas com açúcar, como refrigerante, chá e energético adoçados e suco industrializado, são a categoria de alimento com associação mais consistente a ganho de peso em grandes revisões sistemáticas. Uma hipótese central é que calorias líquidas não ativam os mesmos mecanismos de saciedade que o alimento sólido: o corpo não compensa integralmente na próxima refeição o que bebeu.

A metanálise de Vasanti Malik e colegas, da Harvard School of Public Health, publicada na Diabetes Care em 2010 e reunindo mais de 310 mil participantes, encontrou que quem consumia mais bebidas açucaradas tinha risco 26% maior de desenvolver diabetes tipo 2 do que quem consumia menos, e risco 20% maior de síndrome metabólica. O efeito era proporcional à dose: cada porção adicional de cerca de 350 ml por dia elevava o risco de diabetes tipo 2 em aproximadamente 25%.

Coração: açúcar adicionado e mortalidade cardiovascular

O estudo mais direto sobre açúcar e risco cardiovascular fatal é o de Quanhe Yang e colegas, do CDC e da Harvard, publicado na JAMA Internal Medicine em 2014, com dados de 11.733 adultos americanos acompanhados por uma mediana de 14,6 anos. Comparado a quem obtinha menos de 10% das calorias diárias de açúcar adicionado, quem obtinha 25% ou mais tinha risco de morte cardiovascular quase três vezes maior, mesmo após ajuste para peso corporal, atividade física e outros fatores sociodemográficos e clínicos. O risco subia de forma gradual a cada faixa de consumo, não apenas nos extremos, o que reforça uma relação dose resposta e não só uma associação entre grupos extremos.

Glicação e cérebro: dois efeitos menos comentados

Quando açúcares reagem quimicamente com proteínas e gorduras, seja dentro do corpo, seja durante o cozimento em altas temperaturas, formam-se produtos finais de glicação avançada, conhecidos pela sigla em inglês AGEs. Essas moléculas se acumulam nos tecidos ao longo do tempo, ativam receptores que amplificam o estresse oxidativo e a inflamação de baixo grau, e são um dos mecanismos propostos para complicações crônicas associadas à hiperglicemia persistente, como dano vascular e renal.

Já o debate popular de que açúcar vicia como droga merece um ajuste fino. Alimentos hiperpalatáveis, tipicamente a combinação de açúcar com gordura e não o açúcar isolado, ativam circuitos cerebrais de recompensa ligados à dopamina, algo real e mensurável por neuroimagem. Mas uma revisão de 2016 de Margaret Westwater, Paul Fletcher e Hisham Ziauddeen, da Universidade de Cambridge, concluiu que a evidência em humanos não sustenta um quadro de dependência comparável ao de substâncias psicoativas: os comportamentos do tipo compulsão aparecem sobretudo em contextos de acesso intermitente a comida hiperpalatável em modelos animais, e não como efeito farmacológico direto do açúcar isolado. Vontade de doce não é sinônimo de dependência química, ao menos com a evidência disponível até hoje.

Quanto é demais: o número da OMS e o lugar do açúcar no treino

A recomendação oficial da Organização Mundial da Saúde, publicada em 2015, é clara: açúcares livres devem ficar abaixo de 10% da energia diária, com benefício adicional, sobretudo para cárie, ao ficar abaixo de 5%. Numa dieta de referência de 2000 kcal, isso equivale a menos de 50 g por dia no limite de 10%, e a cerca de 25 g, por volta de 6 colheres de chá, no limite de 5%. Uma única lata de refrigerante de 350 ml já costuma trazer entre 35 e 40 g de açúcar, praticamente o teto do dia inteiro.

Nada disso invalida o papel do açúcar durante o exercício. No intra-treino de provas longas, glicose e frutose combinadas aumentam a taxa de absorção intestinal de carboidrato, porque usam dois transportadores intestinais diferentes ao mesmo tempo, permitindo repor energia mais rápido durante o esforço prolongado. É um uso pontual e funcional, bem diferente do consumo crônico fora desse contexto.

O que fica

Percorrer o açúcar órgão por órgão desfaz os dois extremos: o pânico e a complacência. Ele não é o veneno que arruína o corpo a cada colher, nem o combustível inofensivo que você pode beber à vontade só porque treina. O mesmo açúcar que é ferramenta legítima no gel de uma prova de três horas vira fator de risco quando aparece todo dia, líquido, muito acima do que o corpo processa bem. Por isso a pergunta útil nunca foi "açúcar faz mal?", e sim "quanto, com que frequência, e vindo de onde?". Talvez o exercício mais honesto não seja vigiar o doce ocasional, que quase nunca é o vilão, mas reparar no açúcar que passa despercebido: o refrigerante do almoço, o suco de caixinha, o cafezinho adoçado três vezes por dia, a barrinha "fit" do lanche. É na dose crônica e invisível que a conta se acumula, e é ali, não na sobremesa de domingo, que uma pequena mudança rende mais do que qualquer proibição heroica.

Quem prova na prática

Sir Steve Redgrave Remo, Reino Unido

Diagnosticado com diabetes tipo 2 em 1997, aos 35 anos, durante a preparação para os Jogos Olímpicos. Mesmo assim, conquistou o quinto ouro olímpico consecutivo em Sydney 2000, aplicando insulina após as refeições e mantendo dieta calórica elevada sob acompanhamento médico para sustentar o volume de treino de remo.

Team Novo Nordisk Ciclismo profissional, equipe internacional

Fundada em 2005 como equipe amadora Team Type 1, tornou-se profissional em 2008 e, em 2013, ao assumir o nome Team Novo Nordisk, tornou-se a primeira equipe de ciclismo profissional formada inteiramente por atletas com diabetes tipo 1, que monitoram a glicemia em tempo real durante provas do calendário UCI.

Reforma tributária do México sobre bebidas açucaradas Saúde pública, México (2014 a 2015)

Após a taxa de 1 peso por litro sobre bebidas açucaradas em 2014, as compras dessas bebidas caíram em média 7,6% nos dois primeiros anos, queda de 5,5% em 2014 e acumulando 9,7% até 2015, segundo estudo de Colchero e colegas publicado na Health Affairs.

Perguntas frequentes

Quanto açúcar por dia é considerado seguro?

A OMS recomenda manter os açúcares livres abaixo de 10% da energia diária, com benefício adicional abaixo de 5%. Numa dieta de 2000 kcal, isso equivale a menos de 50 g por dia no limite de 10% ou a cerca de 25 g por dia, por volta de 6 colheres de chá, no limite de 5%.

Fruta inteira faz mal do mesmo jeito que açúcar de refrigerante?

Não. A própria definição de açúcares livres da OMS exclui a frutose intacta dentro da fruta inteira. A fibra e a matriz celular da fruta retardam a absorção e aumentam a saciedade; não há evidência de dano hepático pelo consumo de fruta inteira, diferente do que ocorre com açúcar livre concentrado e líquido.

Açúcar vicia como uma droga?

A evidência em humanos é fraca. Alimentos hiperpalatáveis ativam circuitos cerebrais de recompensa, mas uma revisão de 2016, de Westwater e colegas da Universidade de Cambridge, concluiu que não há evidência robusta de dependência ao açúcar comparável à de substâncias psicoativas em humanos.

Atleta pode consumir açúcar durante o treino ou a prova?

Sim. No exercício prolongado, glicose e frutose combinadas aumentam a absorção intestinal de carboidrato e ajudam a repor energia durante o esforço. O problema descrito neste artigo é o consumo crônico de açúcar livre fora desse contexto, não o uso pontual durante o treino.

Referências

  1. OMS, Guideline: Sugars intake for adults and children (2015)
  2. Stanhope KL et al., Consuming fructose-sweetened, not glucose-sweetened, beverages increases visceral adiposity and lipids and decreases insulin sensitivity, Journal of Clinical Investigation, 2009
  3. Moynihan PJ, Kelly SA, Effect on Caries of Restricting Sugars Intake: Systematic Review to Inform WHO Guidelines, Journal of Dental Research, 2014
  4. Malik VS et al., Sugar-Sweetened Beverages and Risk of Metabolic Syndrome and Type 2 Diabetes, Diabetes Care, 2010
  5. Yang Q et al., Added Sugar Intake and Cardiovascular Diseases Mortality Among US Adults, JAMA Internal Medicine, 2014
  6. Westwater ML, Fletcher PC, Ziauddeen H, Sugar addiction: the state of the science, European Journal of Nutrition, 2016

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).