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Nutrição & Metabolismo

Ozempic e Mounjaro derretem músculo: quem treina precisa se preocupar? O que a ciência de 2025 mostra

Entre 25 e 45 por cento do peso perdido com GLP-1 pode ser massa magra. A boa notícia da evidência recente: o problema quase nunca é a droga, é o déficit sem estímulo.

7 min de leitura
~45% do peso perdido com semaglutida foi massa magra na subanálise por DEXA do STEP-1 Wilding et al., 2021
74% / 26% do peso perdido com tirzepatida no SURMOUNT-1 foi gordura / massa magra, quase igual ao placebo Look et al., 2025
1,6 g/kg platô de proteína por dia associado a ganho de massa magra com treino de força; déficit tende a exigir mais Morton et al., 2018
Este texto é informativo e trata de medicamentos tarjados. Semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) só devem ser usadas sob prescrição e acompanhamento médico. Nada aqui é recomendação de dieta ou de uso de remédio.

A polêmica em uma frase

Os emagrecedores da classe GLP-1 viraram fenômeno de massa. Funcionam, e funcionam muito: reduzem apetite e levam a perdas de peso que até pouco tempo só a cirurgia entregava. O barulho começou quando as imagens de composição corporal apareceram. Todo mundo que emagrece perde alguma massa magra junto com a gordura, mas nesses estudos a fatia parecia grande demais. Daí a manchete que ninguém que treina quer ouvir: você pode estar derretendo músculo.

Os dois lados

De um lado, os alarmistas. Argumentam que a droga engana o corpo, faz a pessoa comer pouco demais, e que sem fome não há estímulo para manter músculo. O resultado seria o skinny fat farmacológico: mais leve na balança, mas com menos músculo, menos força e um metabolismo mais lento.

Do outro, os defensores. Lembram que perder massa magra faz parte de qualquer emagrecimento, inclusive dieta e cirurgia, e que boa parte dessa massa magra é água e tecido de sustentação que naturalmente encolhe quando a pessoa fica menor. Para eles, o pânico ignora que o corpo se ajusta ao novo tamanho.

Como quase sempre, a verdade útil está no meio, e a evidência de 2025 permite ser preciso em vez de dramático.

O que a melhor evidência mostra

Na subanálise de composição corporal do STEP-1, com DEXA, a semaglutida 2,4 mg reduziu a massa gorda em torno de 19% e a massa magra em torno de 10% em 68 semanas. Traduzindo em fatias do peso perdido, cerca de 45% do que sumiu foi massa magra. Mas há um detalhe que os alarmistas esquecem: a proporção de massa magra no corpo aumentou, porque a gordura caiu mais rápido. A razão entre massa magra e gorda subiu de 1,34 para 1,57.

No STEP-1, participantes na semaglutida perderam cerca de 15% do peso; a massa gorda caiu ~19% e a massa magra ~10%, o que colocou aproximadamente 45% do peso perdido na conta da massa magra, ainda que a razão massa magra sobre gordura tenha melhorado de 1,34 para 1,57. Wilding et al., subanálise STEP-1, Journal of the Endocrine Society, 2021

Com a tirzepatida, a foto do SURMOUNT-1 foi um pouco diferente: cerca de 26% do peso perdido foi massa magra e 74% gordura, um perfil quase idêntico ao do grupo placebo (25% e 75%). Ou seja, a composição do que se perde parece a de um emagrecimento comum, só que muito maior em magnitude.

No SURMOUNT-1, a tirzepatida reduziu massa gorda em ~33,9% e massa magra em ~10,9% na semana 72; ainda assim, a divisão do peso perdido ficou em torno de 74% gordura e 26% massa magra, praticamente igual ao placebo (75% e 25%). Look et al., subanálise SURMOUNT-1, Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025

O paradoxo que confunde a internet

Aqui aparece a nuance que costuma ser distorcida. Análises de mundo real de 2025 e 2026 sugerem que a tirzepatida chega a perder mais massa magra em termos absolutos que a semaglutida ao longo de meses. Isso soa contraditório, mas tem explicação simples: a tirzepatida costuma emagrecer mais. Quanto maior a perda total de peso, maior o pedaço de massa magra que vem junto. Não é que uma droga seja boa e a outra má para o músculo. Quanto mais peso você perde, mais massa magra está em jogo, seja qual for o método.

Isso reposiciona o debate inteiro. O vilão não é a molécula. É o déficit calórico rápido sem nenhum sinal dizendo ao corpo que aquele músculo ainda é necessário.

A intervenção que muda o jogo

Se o problema é déficit sem estímulo, a solução aponta para dois lugares muito familiares de quem treina: carga e proteína. O treino de força é o principal sinal biológico de que o músculo precisa ficar. Proteína suficiente dá o material para reparar e manter esse tecido. Juntos, funcionam como um escudo anti-catabólico.

A ciência da proteína já tinha coordenadas antes dos GLP-1. A meta-análise de Morton (2018) fixou um platô perto de 1,6 g por kg ao dia para ganho de massa magra com treino de força. Em período de déficit, várias revisões sugerem que a necessidade sobe acima disso justamente para proteger o que já existe. Nada disso é novidade. O que mudou é o contexto: agora milhões de pessoas estão em déficit profundo e sustentado por uma droga, e muitas não treinam pesado nem comem proteína suficiente.

Uma série de três casos de 2025 acompanhou usuários de semaglutida ou tirzepatida que treinavam força de 3 a 5 vezes por semana com proteína adequada: apesar de perderem entre 13% e 33% do peso, a variação de tecido magro ficou entre -6,9% e +5,8%, ou seja, dois dos três até ganharam tecido magro. Tinsley e Nadolsky, série de casos sobre preservação de tecido magro com GLP-1, SAGE Open Medicine, 2025

A pesquisa está correndo atrás disso agora. Há ensaios randomizados em andamento desenhados exatamente para testar treino de resistência somado a essas drogas, como o LEAN-PREP (232 adultos, com braços de resistência e de proteína em 1,6 g/kg ao lado de semaglutida ou tirzepatida). E o EMBRAZE, fase 2 com 102 pessoas, já mostrou que dá para blindar o músculo por outras vias: adicionar um preservador muscular (um inibidor de miostatina, ainda experimental) à tirzepatida reteve cerca de 55% da massa magra que seria perdida.

O recado honesto do Darwin

Sem hype e sem pânico: se você vai usar um GLP-1, isso é uma decisão médica e só faz sentido com acompanhamento. Mas a evidência converge num ponto que é a nossa praia. A droga tira o peso. Você decide de onde ele sai. Déficit sem treino e sem proteína tende a cobrar em músculo. Treino de força sério e proteína adequada empurram a conta para a gordura.

Não existe pílula que dispense a máquina. A pessoa continua operando o próprio corpo, e as alavancas continuam sendo as de sempre: carga que estimula e comida que sustenta. Quem trata o remédio como substituto do treino vira o tal skinny fat farmacológico. Quem trata como uma ferramenta a mais, dentro de força e nutrição bem feitas, colhe o emagrecimento sem entregar o músculo. Converse com seu médico sobre a droga. E, se ela entrar em cena, trate treino e proteína como parte inegociável do plano.

Quem prova na prática

John Wilding Endocrinologista, Universidade de Liverpool

Primeiro autor do STEP-1 (NEJM, 2021), o ensaio de fase 3 com quase 2.000 pessoas que consolidou a semaglutida 2.4 mg na obesidade. Assinou também a subanálise de composição corporal por DEXA que quantificou quanto do peso perdido era massa magra.

Stuart Phillips Pesquisador de proteína e músculo, McMaster University

Coautor sênior da meta-análise de Morton (2018), que reuniu 49 estudos e 1.863 pessoas e fixou o platô de ~1,6 g de proteína por kg ao dia para ganho de massa magra com treino de força, referência usada até hoje em protocolos de preservação muscular.

Richard Pratley Endocrinologia e metabolismo, AdventHealth Translational Research Institute

Primeiro autor do EMBRAZE (Nature Medicine, fase 2, n=102), que testou o apitegromab, um inibidor de miostatina, somado à tirzepatida e mostrou retenção de cerca de 55% da massa magra que seria perdida, evidência direta de que dá para blindar o músculo durante o emagrecimento farmacológico.

Perguntas frequentes

Ozempic e Mounjaro fazem perder músculo?

Todo emagrecimento faz perder alguma massa magra junto com a gordura, e com GLP-1 não é diferente. Nos ensaios STEP-1 (semaglutida) e SURMOUNT-1 (tirzepatida), a proporção do peso perdido que foi massa magra ficou entre cerca de 26% e 45%, semelhante ao que se vê em dietas e placebo. O problema costuma ser o déficit calórico rápido sem estímulo, não a molécula em si.

Quem treina força perde menos músculo usando GLP-1?

A evidência aponta que treino de força e proteína adequada ajudam a direcionar a perda de peso para a gordura e a preservar o músculo. Uma série de casos de 2025 com usuários que treinavam de 3 a 5 vezes por semana com boa ingestão de proteína mostrou variação de tecido magro entre -6,9% e +5,8%, com dois dos três até ganhando tecido magro apesar de grandes perdas de peso.

Quanta proteína por dia para preservar músculo em déficit?

A meta-análise de Morton de 2018 fixou um platô perto de 1,6 g de proteína por kg de peso ao dia para ganho de massa magra com treino de força. Em período de déficit, várias revisões sugerem que a necessidade sobe acima disso para proteger o músculo existente. O ensaio LEAN-PREP usa justamente 1,6 g/kg como alvo do braço de proteína.

A tirzepatida faz perder mais músculo que a semaglutida?

Em termos absolutos a tirzepatida pode perder mais massa magra, mas isso acontece porque ela costuma emagrecer mais no total. A proporção do peso perdido que é massa magra fica parecida entre as duas e semelhante ao placebo. Quanto maior a perda total de peso, maior a quantidade de massa magra em jogo, seja qual for o método.

Dá para blindar o músculo durante o uso de GLP-1?

Há duas vias com evidência. A comportamental: treino de força somado a proteína adequada, testada em séries de casos e em ensaios em andamento como o LEAN-PREP. E a farmacológica experimental: no EMBRAZE, fase 2 com 102 pessoas, adicionar um inibidor de miostatina à tirzepatida reteve cerca de 55% da massa magra que seria perdida. Qualquer decisão sobre medicamento é médica.

Referências

  1. Wilding JPH et al. Impact of Semaglutide on Body Composition in Adults With Overweight or Obesity: Exploratory Analysis of the STEP 1 Study. Journal of the Endocrine Society, 2021.
  2. Wilding JPH et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021.
  3. Look M et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025.
  4. Pratley RE et al. Apitegromab for lean mass preservation during tirzepatide-induced weight loss: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 2 trial (EMBRAZE). Nature Medicine, 2026.
  5. Morton RW, Phillips SM et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength. British Journal of Sports Medicine, 2018.
  6. Tinsley GM, Nadolsky S. Preservation of lean soft tissue during weight loss induced by GLP-1 and GLP-1/GIP receptor agonists: A case series. SAGE Open Medicine, 2025.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).