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Despertador sobre prato, metáfora da janela alimentar
Foto: Unsplash

Filosofias Alimentares

Jejum intermitente e treino: funciona para quem é atleta?

O 16/8 virou febre entre quem treina pesado. A evidência mostra que dá para perder gordura e manter força e músculo com uma janela alimentar reduzida, mas o resultado depende de proteína suficiente, timing inteligente e adesão real. Veja o que os estudos apontam e onde ficam os cuidados.

7 min de leitura
6,5% redução de gordura corporal em corredores após 4 semanas de 16/8, sem perda de desempenho Tovar, Casazza et al., 2021, Nutrients
1,4 a 2,0 g/kg proteína diária que sustenta a massa magra na maioria de quem se exercita (por kg de peso corporal) Jäger et al., 2017, ISSN Position Stand
acima de 20% taxa de abandono comum em dietas de restrição calórica; adesão ao time-restricted eating varia de 63% a 100% Firman et al., 2023, Exploring Rates of Adherence to TRE

O que é jejum intermitente e o formato 16/8

Jejum intermitente é um padrão de alimentação que alterna períodos de ingestão com períodos de jejum. O formato mais popular entre quem treina é o time-restricted eating (alimentação com tempo restrito), no qual todas as calorias do dia entram dentro de uma janela fixa. No modelo 16/8, você come em uma janela de 8 horas e jejua nas outras 16, contando o sono. Existem variações como 14/10 ou janelas de 4 horas, mas o princípio é o mesmo: comprimir a alimentação em menos horas do dia.

Importante separar duas coisas que costumam ser confundidas. Uma é a janela de tempo. A outra é o total de calorias e proteína que você ingere. A evidência aponta que boa parte dos efeitos do jejum sobre composição corporal vem da redução espontânea de calorias que a janela curta provoca, e não de uma mágica metabólica do jejum em si.

O que a ciência mostra sobre composição corporal

Aqui os dados são mais consistentes. Quando o total de calorias e de proteína é controlado, treinar com uma janela alimentar reduzida tende a favorecer a perda de gordura enquanto preserva a massa magra.

Em 34 homens treinados em força, 8 semanas de 16/8 combinado com musculação reduziram a massa de gordura em comparação ao grupo com alimentação normal (p = 0,0448), mantendo massa livre de gordura, área muscular e força máxima. No mesmo grupo, testosterona e IGF-1 caíram de forma significativa (p = 0,0476 e p = 0,0397). Moro et al., 2016, Journal of Translational Medicine

A queda de testosterona e IGF-1 nesse estudo acende um sinal de atenção para quem busca ganho máximo de massa, e é um dos pontos que merecem conversa com um profissional. Ainda assim, força e músculo foram mantidos ao longo das 8 semanas, o que sugere que, no médio prazo, a musculatura não foi prejudicada.

Em 15 corredores treinados, 4 semanas de 16/8, em desenho cruzado, reduziram a massa de gordura em cerca de 6,5% (queda de 0,8 kg) sem alterar o desempenho no contrarrelógio de 10 km. Tovar, Casazza et al., 2021, Nutrients

E a performance? O que a evidência aponta

Para força e potência, a leitura geral das revisões é tranquilizadora: o jejum intermitente, em si, não costuma piorar o desempenho quando as calorias e a proteína totais são adequadas. Meta-análises não encontraram efeito significativo do jejum sobre força de supino nem sobre salto vertical em relação a treinar sem jejum. Quando aparecem quedas, elas costumam ter mais a ver com sono ruim, desidratação ou déficit calórico agressivo do que com o horário das refeições.

O cenário muda no jejum do Ramadã, que também restringe líquidos durante o dia e altera o sono. Nele, estudos com jogadores de futebol mostram resultados mistos: atletas de elite muitas vezes mantêm o desempenho, enquanto atletas sub-elite, com treino menos frequente, tendem a apresentar quedas em velocidade, agilidade e potência. Ou seja, o contexto e o nível de treino pesam.

Nada aqui é prescrição de dieta. Jejum não é indicado para todo mundo. Pessoas com histórico de transtorno alimentar, diabéticos, gestantes, adolescentes e quem tem alta demanda calórica de treino devem conversar com médico e nutricionista antes de restringir a janela alimentar.

O papel da proteína e do timing

O ponto que mais separa um jejum que preserva músculo de um que corrói massa magra é a proteína total do dia. Comprimir tudo em 8 horas exige atenção para não ficar abaixo do alvo.

Para manter e construir massa magra, a ingestão diária de 1,4 a 2,0 g de proteína por kg de peso corporal é suficiente para a maioria de quem se exercita. Jäger et al., 2017, ISSN Position Stand, JISSN
Em fases de déficit calórico, atletas treinados em força e já magros tendem a precisar de mais: por volta de 2,3 a 3,1 g de proteína por kg de massa livre de gordura por dia ajudam a preservar a massa magra, aumentando com a severidade do déficit. Helms et al., 2014, IJSNEM

Na prática, isso significa distribuir a proteína em 3 ou 4 refeições dentro da janela, priorizar uma dose próxima do treino e não deixar o total do dia refém do horário. Estudos com janela de 4 horas em 4 dias por semana mostraram que força e área muscular ainda evoluíram, sem que a janela restrita atrapalhasse, desde que o estímulo do treino e a proteína fossem mantidos.

Adesão: o fator que costuma decidir o resultado

Nenhuma estratégia funciona se você não consegue seguir. Aqui o jejum tem um trunfo prático: por eliminar refeições em vez de contar cada caloria, muita gente acha mais simples de sustentar. As dietas de restrição calórica clássica costumam ter taxas de abandono acima de 20%, enquanto a adesão relatada em protocolos de time-restricted eating varia entre 63% e 100%. Simplicidade tem valor, mas a rotina de treino também precisa caber na janela: quem treina cedo e come tarde pode acabar mal alimentado no momento do esforço.

Para quem faz sentido e para quem não faz

A evidência aponta que, para adultos saudáveis que treinam, o 16/8 pode ser uma ferramenta útil para reduzir gordura mantendo força e músculo, desde que a proteína e as calorias estejam no lugar. Estudos sugerem que faz menos sentido para quem tem demanda energética muito alta, treina em dois períodos por dia ou está em fase de ganho de massa agressivo, situações em que espremer tudo em 8 horas dificulta atingir o total necessário. A decisão sobre adotar ou não é individual e deve passar por um profissional de saúde. O jejum é o meio, não o fim: quem opera a máquina é você, com dados na mão.

Quem prova na prática

Estudo Moro et al. (homens treinados em força) 16/8 + musculação, 8 semanas, 2016

34 homens treinados perderam gordura mantendo força máxima e massa muscular; testosterona e IGF-1 caíram de forma significativa (p menor que 0,05), publicado no Journal of Translational Medicine

Estudo Tovar, Casazza et al. (corredores treinados) 16/8 cruzado, 4 semanas, 2021

15 corredores tiveram queda de cerca de 6,5% na gordura corporal, sem perder desempenho no contrarrelógio de 10 km, publicado na Nutrients

Jogadores profissionais de futebol no Ramadã Estudo piloto, 8 atletas profissionais, 2019

O desempenho em saltos e sprint caiu durante o jejum do Ramadã; revisões apontam que atletas sub-elite tendem a sofrer quedas maiores que atletas de elite

Perguntas frequentes

O jejum intermitente 16/8 faz perder massa muscular?

Não necessariamente. Estudos com pessoas treinadas em força mostram que, quando a proteína e as calorias totais do dia são mantidas, a massa magra e a força máxima são preservadas ao longo de semanas de 16/8. O risco de perder músculo aparece quando a janela curta faz a proteína total cair abaixo do alvo diário.

Quanta proteína preciso comer fazendo jejum intermitente?

A recomendação geral para quem se exercita é de 1,4 a 2,0 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Em fases de déficit calórico e já magro, atletas treinados em força tendem a precisar de mais, por volta de 2,3 a 3,1 g por kg de massa livre de gordura. Distribua esse total em 3 ou 4 refeições dentro da janela.

Posso treinar em jejum sem prejudicar a performance?

Para força e potência, meta-análises não encontraram piora significativa por treinar em jejum quando as calorias e a proteína totais estão adequadas. Quedas de desempenho costumam vir de sono ruim, desidratação ou déficit calórico agressivo, e não do horário das refeições. Já no jejum do Ramadã, que restringe líquidos, os efeitos são mais variáveis.

Para quem o jejum intermitente não é indicado?

Jejum não é indicado para pessoas com histórico de transtorno alimentar, diabéticos, gestantes, adolescentes e quem tem alta demanda calórica de treino. Também faz menos sentido para quem treina em dois períodos por dia ou está em fase de ganho de massa agressivo. Sempre converse com médico e nutricionista antes de restringir a janela alimentar.

O 16/8 emagrece mais que uma dieta comum?

O emagrecimento vem principalmente do déficit calórico, e não do jejum em si. A vantagem prática do 16/8 é a adesão: por eliminar refeições em vez de contar cada caloria, muita gente acha mais simples de manter, com adesão relatada entre 63% e 100%, contra taxas de abandono acima de 20% em dietas de restrição calórica clássica.

Referências

  1. Moro T. et al. (2016). Effects of eight weeks of time-restricted feeding (16/8) on basal metabolism, maximal strength, body composition, inflammation, and cardiovascular risk factors in resistance-trained males. Journal of Translational Medicine.
  2. Tovar A.P., Richardson C.E., Keim N.L., Van Loan M.D., Davis B.A., Casazza G.A. (2021). Four Weeks of 16/8 Time Restrictive Feeding in Endurance Trained Male Runners Decreases Fat Mass, without Affecting Exercise Performance. Nutrients, 13(9), 2941.
  3. Jäger R. et al. (2017). International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 14, 20.
  4. Helms E.R., Zinn C., Rowlands D.S., Brown S.R. (2014). A systematic review of dietary protein during caloric restriction in resistance trained lean athletes: a case for higher intakes. IJSNEM, 24(2), 127-138.
  5. Tinsley G.M. et al. (2019). Time-restricted feeding plus resistance training in active females: a randomized trial. American Journal of Clinical Nutrition, 110(3), 628-640.
  6. Chtourou H. et al. (2019). Effects of Ramadan Fasting on Recovery Following a Simulated Soccer Match in Professional Soccer Players: A Pilot Study. Frontiers in Physiology.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).