Filosofias Alimentares
Low-carb e cetogênica para atletas: o que a ciência mostra
Adaptar o corpo a queimar mais gordura parece a fórmula perfeita para o endurance, mas a evidência conta uma história mais matizada. Entenda o que os estudos de Burke e Volek mostram sobre economia, potência e para quem a estratégia pode fazer sentido.
O que significa "adaptar a gordura"
Toda pessoa queima uma mistura de carboidrato e gordura durante o exercício. Quanto mais intensa a atividade, maior a fatia que vem do carboidrato, porque a gordura simplesmente não consegue ser oxidada rápido o bastante para sustentar esforços altos. O corpo estoca cerca de 500 gramas de glicogênio no músculo e 100 gramas no fígado, uma reserva limitada. A gordura, mesmo em atletas magros, guarda energia para muitas horas.
A ideia por trás das dietas low-carb (baixo carboidrato) e cetogênica (muito baixo carboidrato, alta gordura, ao ponto de produzir corpos cetônicos) é justamente essa: restringir o carboidrato por semanas para forçar o organismo a se tornar melhor em usar gordura como combustível. O termo técnico é fat adaptation, ou adaptação a gordura. A promessa é sedutora para provas longas, porque quem depende menos do glicogênio, em tese, não "quebra" quando ele acaba.
A adaptação funciona, mas tem um preço
O maior teste dessa premissa veio do laboratório de Jeff Volek. No estudo FASTER, ultramaratonistas de elite adaptados a gordura por meses atingiram taxas de oxidação de gordura muito mais altas do que atletas em dieta rica em carboidrato. A capacidade de queimar gordura chegou a valores nunca antes registrados em humanos.
Ou seja, a adaptação metabólica é real e mensurável. O ponto de virada é que oxidar mais gordura não significa, automaticamente, correr mais rápido. Aqui entra o trabalho de Louise Burke, do Australian Institute of Sport.
Endurance de elite: onde a evidência acende o alerta
Burke colocou marchadores de elite em três dietas por três semanas: alto carboidrato, carboidrato periodizado e cetogênica. Todos treinaram igual. O grupo cetogênico ficou de fato melhor em queimar gordura, mas pagou caro em economia, que é o custo de oxigênio para manter uma dada velocidade.
A leitura da evidência é direta: usar gordura como combustível é menos eficiente do ponto de vista do oxigênio. Para o atleta amador que só quer completar a distância, isso pode não pesar. Para quem disputa segundos, a piora na economia tende a superar qualquer benefício da reserva de gordura maior.
Alta intensidade e potência: o calcanhar de Aquiles
Esforços explosivos dependem de glicólise e de glicogênio muscular prontamente disponível. Sprints, tiros repetidos, levantamento de peso e a arrancada final de uma prova exigem energia rápida que a gordura não entrega. A cetogênica, ao esvaziar o glicogênio, mexe justamente nesse sistema.
A literatura aqui é mais mista do que no endurance. Alguns estudos mostram queda em trabalho de alta intensidade, enquanto outros não encontraram prejuízo em testes de sprint isolado após semanas de adaptação. Ainda assim, a posição oficial da área é cautelosa quando o esporte exige repetir esforços máximos.
Prós, contras e a saída da periodização
Colocando na balança, a evidência aponta um quadro claro. A favor: maior capacidade de oxidar gordura, menor dependência de reabastecer carboidrato em provas muito longas e possível ajuda na perda de gordura. Contra: piora na economia em ritmos de competição, risco de perder massa magra, dificuldade em alta intensidade e uma fase de adaptação que costuma derrubar o rendimento por semanas.
- Endurance de elite competindo por tempo: os estudos sugerem que carboidrato disponível continua vencendo.
- Ultra muito longo e de baixa intensidade: é onde a adaptação a gordura tem mais defensores, embora sem consenso.
- Força, velocidade e esportes intermitentes: a evidência favorece não restringir carboidrato de forma crônica.
Não por acaso, muitos atletas de resistência que exploram o baixo carboidrato acabam adotando a periodização: treinam parte do tempo com pouco carboidrato para estimular a adaptação e reintroduzem carboidrato nos dias duros e nas provas. O ultramaratonista americano Zach Bitter, recordista mundial dos 100 milhas em pista em 2019, é um exemplo público dessa abordagem flexível, variando o carboidrato conforme o treino e a competição em vez de zerá-lo o ano inteiro.
O que fica
A ciência não decreta um vencedor único entre carboidrato e gordura: ela mostra dois sistemas com propósitos diferentes. A cetogênica prova que o corpo consegue oxidar gordura a taxas 2,3 vezes maiores (1,54 g/min contra 0,67 g/min no estudo FASTER), mas essa eficiência metabólica cobra um preço em oxigênio que atletas de elite não podem pagar, como mostrou Louise Burke. É por isso que o modelo mais promissor não é escolher um lado, e sim imitar Zach Bitter: usar o baixo carboidrato como ferramenta de treino, não como identidade permanente, guardando o carboidrato para os dias em que a prova de fato começa.
Quem prova na prática
Recordista mundial dos 100 milhas em pista em 2019 (11h19min13s, ritmo médio de 6:48 min/milha), conhecido por uma abordagem low-carb periodizada que reintroduz carboidrato nos dias duros e nas provas.
Liderou o estudo com marchadores de elite que mostrou piora de economia e de desempenho na dieta cetogênica, resultado replicado em 2020.
Conduziu o estudo FASTER, que documentou nos corredores adaptados a gordura as maiores taxas de oxidação de gordura já registradas em humanos.
Perguntas frequentes
Dieta cetogênica melhora o desempenho no endurance?
A evidência de elite diz que não melhora e pode piorar. A adaptação aumenta muito a queima de gordura, mas piora a economia de exercício, ou seja, o corpo gasta mais oxigênio para manter o mesmo ritmo. Nos estudos de Burke com marchadores de elite, a cetogênica anulou o ganho de desempenho que o treino intensificado trouxe aos grupos com carboidrato.
Então a adaptação a gordura não serve para nada?
Serve, mas depende do contexto. Para provas muito longas e de baixa intensidade, ter maior capacidade de usar gordura reduz a dependência de reabastecer carboidrato e tem defensores. O problema aparece quando o esporte exige esforços intensos ou disputa de segundos, onde o carboidrato disponível continua vencendo.
Por que a cetogênica atrapalha a alta intensidade?
Esforços explosivos como sprints, tiros repetidos e levantamento de peso dependem de glicólise e de glicogênio muscular prontamente disponível. A gordura não fornece energia rápido o bastante, e a cetogênica esvazia justamente o estoque de glicogênio que alimenta esse sistema.
O que é periodização de carboidrato?
É variar a ingestão de carboidrato conforme o treino: treinar parte do tempo com pouco carboidrato para estimular a adaptação a gordura e reintroduzir carboidrato nos dias duros e nas provas. É a abordagem que atletas como Zach Bitter usam, em vez de zerar o carboidrato o ano inteiro.
Low-carb ajuda na composição corporal?
O posicionamento da ISSN de 2024 indica que a cetogênica pode gerar maior perda de peso e de gordura, mas também tende a acentuar a perda de massa magra, em boa parte por diferenças de calorias, proteína e fluidos. Qualquer estratégia alimentar deve ser acompanhada por um nutricionista ou médico do esporte.
Referências
- Burke, L. M. et al. (2017). Low carbohydrate, high fat diet impairs exercise economy and negates the performance benefit from intensified training in elite race walkers. The Journal of Physiology, 595(9), 2785-2807.
- Burke, L. M. et al. (2020). Crisis of confidence averted: Impairment of exercise economy and performance in elite race walkers by ketogenic LCHF diet is reproducible. PLOS One, 15(6), e0234027.
- Volek, J. S. et al. (2016). Metabolic characteristics of keto-adapted ultra-endurance runners. Metabolism, 65(3), 100-110.
- Leaf, A. et al. (2024). International Society of Sports Nutrition position stand: ketogenic diets. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 21(1), 2368167.
- Bitter Z. quebra recorde mundial dos 100 milhas em 11h19min (2019). Sports Illustrated.
Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).
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