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Pelotão de ciclistas de estrada em esforço numa prova
Foto: Unsplash

Nutrição esportiva

Carboidratos: o combustível do esporte

Carboidrato não é inimigo. É o substrato preferencial do músculo em alta intensidade. Cortar carbo indiscriminadamente prejudica performance, recuperação e saúde a longo prazo.

6 min de leitura
1,26 g/min Oxidação de carboidrato exógeno com glicose mais frutose, contra cerca de 1,0 g/min só com glicose Jentjens 2004
8% Ganho de potência num contrarrelógio com bebida de glicose e frutose 2:1 contra glicose isolada, ambas a 1,8 g/min Currell e Jeukendrup 2008
até 90 g/h Ingestão de carboidrato sugerida para esforços de endurance acima de 2,5 a 3 horas, com carboidratos de transporte múltiplo Thomas, Erdman e Burke 2016
Demanda de carbo por intensidade
Caminhada (Z1)
3 g/kg
Corrida leve (Z2)
5 g/kg
Treino limiar
7 g/kg
HIIT / Força
8 g/kg
Treino pesado
10 g/kg

Por que carboidratos importam no esporte

O glicogênio muscular e hepático é o combustível de escolha em intensidades moderadas a altas. Quando o estoque se esgota, a performance cai bruscamente, o fenômeno conhecido como "bater na parede" em maratonistas. O músculo não consegue manter potência sem glicogênio disponível.

Em esforços de baixa intensidade (abaixo de 65% VO2max), a gordura é o substrato predominante. Isso é o que torna o treino de base aeróbica em Z1-Z2 tão eficiente: você treina o motor de gordura sem depletar glicogênio. Ao cruzar o limiar anaeróbico, a dependência do carbo aumenta exponencialmente.

Quanto carbo você precisa?

As diretrizes do ACSM e ISSN (revisadas por Louise Burke do Australian Institute of Sport) recomendam ingestão proporcional à carga de treino:

Treino leve (TRIMP abaixo de 80): 3 a 5 g/kg de peso corporal
Treino moderado (TRIMP 80 a 150): 5 a 7 g/kg
Treino pesado (TRIMP acima de 150): 7 a 10 g/kg
ACSM · ISSN · Burke et al., "Carbohydrates for Training and Competition" (2011)

Timing: quando comer faz diferença

Pré-treino (1 a 3h antes): 1 a 4 g/kg de carboidrato de índice glicêmico baixo a moderado. Teste a tolerância individual para evitar desconforto gastrointestinal.

Durante treinos longos (acima de 60 a 90 min): 30 a 60 g de carbo por hora, podendo chegar a 90 g/h em ultraprovas combinando glicose e frutose. A limitação é a taxa de absorção intestinal, não a capacidade gástrica.

Pós-treino (primeiros 30 a 60 min): 1 a 1,2 g/kg de carbo rápido combinado com 0,3 a 0,4 g/kg de proteína. A janela anabólica é real, mas não precisa ser nos literais primeiros 5 minutos.

Periodização de carboidratos

Uma estratégia avançada é o "train low": realizar sessões de baixa intensidade com disponibilidade reduzida de glicogênio para estimular adaptações no metabolismo de gordura. Louise Burke publicou estudos mostrando melhora na oxidação de gordura sem impacto negativo em performance quando a periodização é bem feita.

Train low não significa sempre cortar carbo. Sessões de qualidade (intervalados, limiar) precisam de carbo disponível. A periodização só funciona aplicada nas sessões certas.

Carb loading antes de provas

Para provas acima de 90 minutos, a supercompensação de glicogênio nos 2 a 3 dias anteriores maximiza os estoques. O protocolo moderno, validado por Bergström e Hultman desde 1967 e refinado depois, é simples: reduzir o volume de treino e aumentar a ingestão de carbo para 8 a 10 g/kg por 2 a 3 dias.

O limite clássico do fueling era um só: o intestino absorve glicose por um único transportador (SGLT1), que satura perto de 60 g por hora. A virada veio quando Jentjens e Jeukendrup (2004) mostraram que somar frutose, absorvida por outra porta (o transportador GLUT5), elevava a taxa de oxidação de carboidrato exógeno de cerca de 1,0 g/min só com glicose para 1,26 g/min com a mistura. Em ingestões muito altas de glicose e frutose, Jentjens e Jeukendrup (2005) chegaram a registrar 1,75 g/min, o teto prático conhecido dessa via de transporte duplo.

Esse ganho não é só laboratório. Currell e Jeukendrup (2008) compararam glicose isolada contra glicose mais frutose na razão 2:1, ambas entregando carboidrato a 1,8 g/min, e mediram 8% mais potência no contrarrelógio final com a mistura. É o mesmo princípio que sustenta o ciclismo atual: nas etapas mais severas do Tour de France, equipes reportam Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard ingerindo perto de 120 g de carboidrato por hora, algo que exige justamente o transporte duplo para ser oxidado sem colapso gastrointestinal.

O que fica

Carboidrato no esporte não é questão de comer mais ou menos, é questão de acompanhar a carga do dia: um treino leve em Z2 pede metade do carbo de um treino pesado, e essa curva é a diferença entre o corredor que bate na parede aos 32 km e o que chega inteiro à linha. A ciência do transporte duplo, glicose somada a frutose, reescreveu o teto do possível: o mesmo princípio que sustenta Pogacar e Vingegaard a 120 g de carboidrato por hora nas etapas mais duras do Tour de France está disponível em qualquer gel esportivo de prateleira. A dose certa é conversa para o nutricionista, mas a lição central cabe numa frase: trate o carboidrato como combustível de carga, não como vilão fixo do prato.

Quem prova na prática

Eliud Kipchoge Maratonista, Quênia

Fechou a INEOS 1:59 em 1h59min40s (Viena, 2019), a um ritmo de 2min50s/km, sustentado por um plano de carboidrato que chegou a cerca de 100 g por hora entregue em bebida e gel, muito acima dos 37 g/h que ele absorvia antes de treinar o intestino.

Tadej Pogacar Ciclista de estrada, Eslovênia

Nas etapas mais duras do Tour de France (2024), sua equipe reporta ingestão próxima de 120 g de carboidrato por hora, cerca de 500 kcal/h, patamar considerado impensável poucos anos antes.

Jonas Vingegaard Ciclista de estrada, Dinamarca

Campeão do Tour de France em 2022 e 2023, tem sua estratégia de fueling ajustada por nutricionistas em torno do padrão de 100 a 120 g/h que domina o pelotão moderno.

Perguntas frequentes

Carboidrato engorda ou atrapalha o desempenho no esporte?

Carboidrato em si não engorda. O que determina ganho ou perda de peso é o balanço energético total ao longo do tempo, e não um macronutriente isolado. Para exercício de alta intensidade, a evidência aponta que o carboidrato é o substrato preferencial do músculo, porque gera energia mais rápido que gordura. Restringir demais tende a reduzir a capacidade de sustentar esforços intensos.

Quanto de carboidrato por dia um atleta precisa?

Depende do volume e da intensidade do treino, e a recomendação ideal deve ser individualizada com um nutricionista. Como referência consensual, diretrizes de nutrição esportiva costumam sugerir faixas amplas que variam conforme a carga, tipicamente maiores em dias de treino longo ou intenso e menores em dias leves. Estudos sugerem que a disponibilidade de carboidrato influencia diretamente a performance em esforços prolongados.

Por que baterei antes ao treinar de estômago vazio ou low carb?

Os estoques de glicogênio (a forma como o corpo guarda carboidrato no músculo e no fígado) são limitados e se esgotam em exercícios prolongados ou intensos. Quando o glicogênio cai, surge a sensação de fadiga que atletas chamam de bater na parede. A evidência aponta que manter boa disponibilidade de carboidrato ajuda a retardar essa fadiga e a sustentar o ritmo por mais tempo.

Preciso repor carboidrato durante treinos longos?

Para esforços contínuos que passam de cerca de 60 a 90 minutos, estudos sugerem que ingerir carboidrato durante a atividade ajuda a manter a glicemia e a poupar o glicogênio, o que sustenta o desempenho. Em treinos curtos, geralmente não é necessário. A quantidade e a forma de reposição devem ser ajustadas caso a caso, de preferência com orientação profissional.

Referências

  1. Jentjens RLPG, Moseley L, Waring RH, Harding LK, Jeukendrup AE. Oxidation of combined ingestion of glucose and fructose during exercise. Journal of Applied Physiology, 2004; 96(4):1277-1284.
  2. Currell K, Jeukendrup AE. Superior endurance performance with ingestion of multiple transportable carbohydrates. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2008; 40(2):275-281.
  3. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. American College of Sports Medicine Joint Position Statement: Nutrition and Athletic Performance. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2016; 48(3):543-568.
  4. Jeukendrup AE. A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Medicine, 2014; 44(Suppl 1):S25-S33.
  5. Jentjens RLPG, Jeukendrup AE. High rates of exogenous carbohydrate oxidation from a mixture of glucose and fructose ingested during prolonged cycling exercise. British Journal of Nutrition, 2005; 93(4):485-492.
  6. Jeukendrup AE. Carbohydrate feeding during exercise. European Journal of Sport Science, 2008; 8(2):77-86.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).