Ciclismo
E se o EPO nunca tivesse funcionado tanto? O estudo que questiona o vilão do ciclismo
O EPO é o símbolo máximo do doping no ciclismo, mas um ensaio randomizado com placebo não achou diferença de tempo numa subida ao Mont Ventoux. A ciência aqui é mais sutil, e mais interessante, do que a manchete sugere.
O vilão perfeito
Poucas siglas carregam tanto peso simbólico no esporte quanto EPO. A eritropoietina recombinante (rHuEPO) virou sinônimo de trapaça na era de Lance Armstrong, dos escândalos da Festina e do peloton que subia montanhas com hematócritos absurdos. A lógica fisiológica é impecável: mais EPO estimula a medula a produzir mais glóbulos vermelhos, o sangue transporta mais oxigênio e o VO2máx sobe. Ninguém sério discute isso.
Por isso causou desconforto quando um grupo holandês publicou dados sugerindo que, numa corrida de estrada de verdade, ciclistas dopados com EPO não foram mais rápidos que os que tomaram água com sal. A pergunta provocativa que ficou no ar foi: e se o ganho de performance real do EPO tiver sido cronicamente superestimado?
O que o ensaio realmente encontrou
O trabalho central é de Heuberger e colegas, publicado na Lancet Haematology em 2017. Foi um ensaio duplo-cego, randomizado e controlado por placebo com 48 ciclistas amadores bem treinados, homens de 18 a 50 anos. Metade recebeu epoetina beta (média de 6000 UI por semana) por 8 semanas, a outra metade recebeu solução salina. No fim, todos encararam uma subida ao Mont Ventoux.
Ou seja: o grupo dopado foi, em média, 17 segundos mais lento na estrada, uma diferença sem significado estatístico. O teste submáximo, mais parecido com a demanda de uma prova longa, também não separou os grupos. A conclusão dos autores foi cirúrgica: o EPO melhorou um teste de esforço máximo em laboratório, mas não os desfechos mais relevantes para uma corrida.
Por que VO2máx não é o mesmo que vencer
Aqui mora a nuance. Numa revisão anterior do mesmo grupo, na British Journal of Clinical Pharmacology (2013), os pesquisadores examinaram 13 estudos sobre EPO e resistência. O problema que eles apontaram é metodológico: quase todos mediram apenas VO2máx, e não a performance numa corrida real.
A física da corrida explica o descompasso. Numa prova de estrada longa, o ciclista quase nunca pedala no seu VO2máx. A maior parte do tempo é gasta em intensidade submáxima, governada por fatores como economia de pedalada, limiar de lactato e estratégia. Um motor com teto mais alto não ajuda se você raramente encosta no teto.
O outro lado: os críticos têm razão também
Seria irresponsável ler isso como EPO não funciona. Os próprios autores e a comunidade científica apontaram limites importantes.
- Amostra amadora, não profissional. Pesquisadores não podem dopar atletas de elite sem expô-los a banimento. O líder do estudo, Jules Heuberger, admitiu que resta a dúvida se os achados valem para ciclistas profissionais.
- Duração curta. Uma única subida não reproduz a fadiga acumulada de três semanas de uma Grande Volta, onde muitos suspeitam que o verdadeiro ganho do EPO esteja na recuperação entre etapas, não numa contrarrelógio isolada.
- Ceticismo institucional. Olivier Rabin, diretor científico da Agência Mundial Antidopagem, resumiu a reação: a comunidade científica vai receber isso com muito ceticismo.
A leitura honesta não é que a substância seja inócua. É que a magnitude do ganho em performance de corrida real pode ter sido inflada pela cultura, pelo efeito placebo e pela extrapolação direta do VO2máx de laboratório para o resultado na estrada.
A história não deixa mentir
O contexto humano é inseparável dos números. Lance Armstrong recebeu banimento vitalício da USADA, foi despojado dos sete títulos do Tour de France e confessou a Oprah Winfrey, em janeiro de 2013, o uso sistemático de EPO, transfusões e outras substâncias. Bjarne Riis, vencedor do Tour de 1996 e apelidado de Mr. 60 por cento por seu suposto hematócrito, confessou em 2007 ter usado EPO entre 1993 e 1998.
Gerações inteiras arriscaram a saúde convencidas de um benefício que a melhor evidência disponível sugere ter sido, ao menos em parte, superestimado. E o custo era real: a revisão de 2013 aponta risco aumentado de eventos trombóticos e outros perigos graves, classificando o uso como relação risco-benefício negativa.
O que fica
A controvérsia do EPO é um caso raro em que a manchete provocativa e a nuance científica convivem. O EPO eleva o VO2máx, disso não há dúvida. Mas transformar esse ganho fisiológico em segundos numa linha de chegada é bem menos automático do que décadas de mitologia sugeriram. A ciência limpa não elege heróis nem vilões fáceis: ela mede, duvida e mede de novo.
Quem prova na prática
Banido vitaliciamente pela USADA e despojado dos sete títulos do Tour de France; confessou a Oprah em janeiro de 2013 o uso sistemático de EPO e transfusões de sangue.
Vencedor do Tour de France de 1996, apelidado de Mr. 60 por cento; confessou em 2007 ter usado EPO, hormônio do crescimento e cortisona entre 1993 e 1998.
Perguntas frequentes
O estudo prova que o EPO não funciona no ciclismo?
Não. O ensaio de Heuberger e colegas (Lancet Haematology, 2017) mostrou que o EPO elevou o VO2máx e a potência máxima em laboratório, mas não reduziu o tempo numa subida real ao Mont Ventoux. A leitura correta é que o ganho fisiológico não se traduziu em vantagem de performance naquele contexto específico, não que a substância seja inócua.
Por que o EPO aumenta o VO2máx mas não o tempo de prova?
Porque numa corrida de estrada longa o ciclista quase nunca pedala no seu VO2máx. A maior parte do tempo é gasta em intensidade submáxima, governada por economia de pedalada, limiar de lactato e estratégia. Um teto de VO2máx mais alto ajuda pouco se o atleta raramente encosta nesse teto.
Os achados valem para ciclistas profissionais?
É a maior limitação do estudo. A amostra era de amadores bem treinados, porque não é ético nem legal dopar atletas de elite sujeitos às regras antidopagem. O próprio líder do estudo, Jules Heuberger, admitiu que resta a dúvida se os resultados se aplicam ao ciclismo profissional, e uma Grande Volta de três semanas envolve fadiga acumulada que uma única subida não reproduz.
Então tomar EPO é seguro?
De jeito nenhum. Independentemente do debate sobre performance, a revisão de 2013 do mesmo grupo classificou o uso de rHuEPO como relação risco-benefício negativa, com risco aumentado de eventos trombóticos. EPO é substância proibida e seu uso sem indicação médica pode causar coágulos, AVC e morte.
Como a comunidade científica reagiu ao estudo?
Com ceticismo. Olivier Rabin, diretor científico da Agência Mundial Antidopagem, afirmou que a comunidade científica receberia os achados com muito ceticismo e que seria preciso muito mais evidência para mudar a posição sobre o EPO. O estudo abriu um debate legítimo, mas não encerrou a questão.
Referências
- Heuberger J.A.A.C. et al. (2017). Effects of erythropoietin on cycling performance of well trained cyclists: a double-blind, randomised, placebo-controlled trial. The Lancet Haematology, 4(8):e374-e386.
- Heuberger J.A.A.C. et al. (2013). Erythropoietin doping in cycling: lack of evidence for efficacy and a negative risk-benefit. British Journal of Clinical Pharmacology, 75(6):1406-1421.
- ScienceDaily (2017). For amateur cyclists, EPO blood doping may have little effect on real-world road race performance.
- CBC Sports (2017). Controversial study shows EPO might not have helped Lance Armstrong.
- USADA. Lance Armstrong Receives Lifetime Ban and Disqualification of Competitive Results.
- Cyclingnews (2007). Riis confesses doping-tainted career.
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