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Pelotão de ciclismo profissional em disputa na estrada
Foto: Unsplash

Ciclismo

Rebreathing de monóxido de carbono no ciclismo: teste inofensivo ou nova fronteira do doping?

Em 2024, vazou que equipes do Tour de France inalavam monóxido de carbono. Os times dizem que é apenas um exame diagnóstico. Críticos apontam que a mesma técnica, repetida, imita a altitude e vira dopagem. A ciência mostra que a diferença está na dose e na frequência.

7 min de leitura
+4,8% aumento da massa de hemoglobina após 3 semanas de inalação repetida (5x/dia) Schmidt et al., 2020
2 semanas intervalo mínimo obrigatório entre medições permitido pela nova regra UCI, 2025
10 fev 2025 data em que a inalação repetida de CO passou a ser proibida no ciclismo UCI, 2025

O que aconteceu no Tour de France de 2024

Durante a maior corrida de ciclismo do mundo, uma reportagem do site Escape Collective revelou que ao menos três equipes do pelotão usavam um aparelho de rebreathing de monóxido de carbono (CO). Entre elas estavam as duas maiores forças da prova: a UAE Team Emirates, de Tadej Pogacar, e a Visma Lease a Bike, de Jonas Vingegaard. A Israel Premier Tech também foi citada, e mais tarde a Ineos Grenadiers admitiu ter usado a mesma técnica.

A reação foi imediata. Como o monóxido de carbono é um gás tóxico, ligado a intoxicações domésticas fatais, a simples ideia de atletas de elite inalando o composto soou alarmante. Os ciclistas, porém, minimizaram tudo.

A versão das equipes: é só um exame

Pogacar chamou o procedimento de \"teste bem simples\". Segundo ele, o atleta sopra dentro de um balão por cerca de um minuto, mede a massa de hemoglobina e repete duas semanas depois. Vingegaard foi na mesma linha e disse não haver \"nada de suspeito\", comparando o efeito a \"fumar um cigarro\". Para os times, o objetivo é puramente diagnóstico: medir quanta hemoglobina o corpo produziu antes e depois de um estágio de treino em altitude, para saber se aquele bloco de treino funcionou.

Por que o método é cientificamente legítimo

Nesse ponto, os ciclistas têm razão. O rebreathing de CO em dose única é o padrão-ouro da ciência do esporte para medir a massa total de hemoglobina. A técnica foi refinada por Nicole Prommer e Walter Schmidt e publicada em 2005.

A lógica é elegante. O monóxido de carbono se liga à hemoglobina com afinidade muito maior que o oxigênio, formando carboxi-hemoglobina. Ao inalar uma quantidade conhecida e medir quanto CO foi absorvido, calcula-se indiretamente quantas moléculas de hemoglobina circulam no sangue. Como a hemoglobina é o veículo do oxigênio, medir a sua massa é medir a capacidade real de transporte de O2 do atleta. Uma medição dura poucos minutos e eleva a carboxi-hemoglobina de forma breve e transitória.

Uma medição diagnóstica leva a carboxi-hemoglobina a cerca de 10%, acima do limiar considerado seguro de aproximadamente 6,4%. Ainda assim, uma única exposição curta é considerada sem efeito sobre a performance.

Gatterer et al., 2024 (Frontiers in Physiology)

Onde a ferramenta vira problema

A controvérsia não está no exame. Está no que acontece quando a mesma inalação é repetida muitas vezes. Ao expor o corpo de forma crônica a doses baixas de CO, cria-se uma hipóxia artificial: as células percebem menos oxigênio disponível e o organismo responde produzindo mais hemoglobina, exatamente como faria em uma montanha alta. A diferença é que isso acontece sem sair de casa.

Em um estudo controlado, participantes inalaram um bolus de CO cinco vezes por dia durante três semanas. O resultado foi um aumento de 4,8% na massa de hemoglobina, efeito comparável ao de um estágio de altitude, com tendência de ganho no VO2max de cerca de 4 mL/min por grama de hemoglobina adicional.

Schmidt et al., 2020 (Medicine & Science in Sports & Exercise)

Nem toda dose funciona. Ryan et al. (2016) testaram um protocolo mais leve, com dez inalações ao longo de doze dias, e não encontraram efeito relevante na hemoglobina nem no VO2max. Já Wang et al. (2019), com cinco inalações por semana, relataram um aumento de 3,7% na massa de hemoglobina. O padrão é claro: o efeito de dopagem depende de dose e frequência altas e sustentadas. A linha entre diagnóstico e batota é, literalmente, quantas vezes você inala.

A decisão da UCI

A União Ciclística Internacional entrou no debate e, a partir de 10 de fevereiro de 2025, baniu a inalação repetida de monóxido de carbono. A justificativa foi de saúde, não apenas de fair play: fora de ambiente médico, a exposição repetida ao gás pode causar dor de cabeça, náusea, tontura e, em casos graves, arritmias, convulsões e perda de consciência. A entidade também admitiu que os efeitos de longo prazo dessa prática são desconhecidos.

A regra não proibiu o exame. Sob supervisão médica, uma medição continua autorizada, com uma segunda inalação permitida apenas após um intervalo obrigatório de duas semanas. Na prática, a UCI transformou uma ferramenta de diagnóstico legítima em algo controlado pela dose exata, separando o uso responsável do abuso.

Monóxido de carbono é um gás tóxico. Este texto é informativo e não recomenda qualquer inalação de CO fora de ambiente médico supervisionado. Não substitui avaliação profissional.

O veredito da melhor evidência

A ciência é desconfortavelmente simétrica aqui. A dose única é um exame de laboratório consagrado e útil, que ajuda o atleta a entender se o treino em altitude valeu a pena. A mesma substância, inalada várias vezes ao dia por semanas, deixa de medir a adaptação e passa a fabricá-la, com risco real à saúde e sem benefício comprovado que justifique o perigo. O que separa a medicina do doping, neste caso, não é a molécula. É a frequência.

Quem prova na prática

Tadej Pogacar Ciclista esloveno, UAE Team Emirates, múltiplo campeão do Tour de France

Confirmou no Tour de France de 2024 que sua equipe usava o rebreathing de CO, descrevendo-o como um teste simples para medir a massa de hemoglobina após treino em altitude.

Jonas Vingegaard Ciclista dinamarquês, Visma Lease a Bike, campeão do Tour de France em 2022 e 2023

Defendeu a prática dizendo não haver nada de suspeito e comparou o efeito de uma medição a fumar um cigarro, afirmando que serve para medir a hemoglobina antes e depois da altitude.

Walter Schmidt Fisiologista do esporte, chefe do departamento de medicina esportiva da Universidade de Bayreuth (Alemanha)

Coautor do método otimizado de rebreathing de CO publicado em 2005 e do estudo de 2020 que mostrou aumento de 4,8% na massa de hemoglobina com inalações repetidas.

Perguntas frequentes

O que é o rebreathing de monóxido de carbono no ciclismo?

É uma técnica de laboratório em que o atleta inala uma dose conhecida de monóxido de carbono para medir a massa total de hemoglobina do sangue. O CO se liga à hemoglobina, e por essa ligação calcula-se de forma indireta a capacidade de transporte de oxigênio, servindo para avaliar a resposta a um treino em altitude.

O rebreathing de CO é doping?

Uma medição única não é doping: é um exame diagnóstico legítimo e consagrado na ciência do esporte. O problema surge com a inalação repetida, várias vezes ao dia por semanas, que induz o corpo a produzir mais hemoglobina como se estivesse em altitude. É esse uso crônico, e não a medição pontual, que a UCI passou a proibir em fevereiro de 2025.

Por que a UCI proibiu a inalação repetida de monóxido de carbono?

Por dois motivos. O primeiro é de saúde: a exposição repetida ao gás fora de ambiente médico pode causar dor de cabeça, náusea, tontura e, em casos graves, arritmias, convulsões e perda de consciência, com efeitos de longo prazo desconhecidos. O segundo é de fair play, já que o uso crônico imita os ganhos do treino em altitude. A regra manteve permitido o exame diagnóstico sob supervisão médica, com intervalo mínimo de duas semanas entre medições.

Quanto o CO repetido realmente aumenta a hemoglobina?

Depende da dose e da frequência. No estudo de Schmidt et al. (2020), inalações cinco vezes ao dia por três semanas elevaram a massa de hemoglobina em 4,8%, efeito comparável a um estágio de altitude. Já protocolos mais leves, como o de Ryan et al. (2016), com dez inalações em doze dias, não produziram efeito relevante. Ou seja, o ganho de performance exige exposição alta e sustentada.

Quais atletas foram associados a essa prática no Tour de France de 2024?

A reportagem do Escape Collective citou UAE Team Emirates, Visma Lease a Bike e Israel Premier Tech, e depois a Ineos Grenadiers admitiu ter usado a técnica. Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard confirmaram publicamente o uso, descrevendo-o como um exame diagnóstico para medir a resposta ao treino em altitude, não como forma de ganho direto de desempenho.

Referências

  1. Gatterer, H. et al. (2024). Low-dose carbon monoxide inhalation to increase total hemoglobin mass and endurance performance: scientific evidence and implications. Frontiers in Physiology, 15.
  2. Schmidt, W. et al. (2020). Chronic Exposure to Low-Dose Carbon Monoxide Alters Hemoglobin Mass and VO2max. Medicine & Science in Sports & Exercise (PubMed 32118696).
  3. UCI (2025). The UCI bans repeated inhalation of carbon monoxide. Comunicado oficial, fevereiro de 2025.
  4. Ryan, B. J. et al. (2016). Ten Days of Intermittent, Low-dose Carbon Monoxide Inhalation does not Significantly Alter Hemoglobin Mass. (PubMed 27410770).
  5. road.cc (2024). 'Nothing suspicious' Tadej Pogacar and Jonas Vingegaard defend carbon monoxide rebreathing.
  6. TrainingPeaks (2024). The Science and Controversy of Carbon Monoxide Rebreathing.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).