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Ciclista subindo rampa íngreme contra parede de rocha, esforço
Foto: Unsplash

Ciclismo

6,10 W/kg: os números de Pogacar e Vingegaard são humanamente possíveis sem doping?

Antes de 2013, toda subida acima de 6,10 W/kg estimados tinha dono dopado. Depois de uma década de silêncio, Pogacar e Vingegaard voltaram a cruzar essa linha. O que a ciência diz sobre uma pergunta que a fisiologia sozinha não consegue responder.

6 min de leitura
6,10 W/kg Limiar em que, antes de 2013, toda subida do Tour acima dele tinha dono dopado; hoje 4 escaladas de Pogacar e 2 de Vingegaard o cruzam Lanterne Rouge / análise de eras, 2025
442 ± 15 W Potência média estimada de Pogacar por cerca de 40 min, com VO2 de 80 ± 3 ml/kg/min em seis subidas de 2024-2025 Berg, Journal of Science and Cycling, 2025
14% → 6% Encolhimento do gap entre a era do doping comprovado e a era presumidamente limpa Beyond Watts/Kg, Medium, 2025

O número que voltou a assombrar o ciclismo

Existe uma fronteira invisível na história das grandes subidas do Tour de France. Por anos, ela funcionou como uma linha divisória entre o possível e o suspeito: cerca de 6,10 W/kg de potência estimada, sustentados por 30 a 40 minutos de escalada. Antes de 2013, praticamente toda ascensão que ultrapassava esse patamar pertencia a um ciclista depois confirmado como dopado, na era do EPO e da manipulação sanguínea. Depois veio uma década de silêncio, em que ninguém chegou perto. Agora, entre 2024 e 2025, quatro escaladas de Tadej Pogacar e duas de Jonas Vingegaard voltaram a cruzar essa linha.

O gap entre a era do doping comprovado e a era presumidamente limpa, que já foi de cerca de 14%, encolheu para algo perto de 6%. É esse encolhimento que reacende, todo mês de julho, a mesma pergunta: esses números são humanamente possíveis sem doping?

Na subida do Mont Ventoux, etapa 16 do Tour de France 2025, Vingegaard registrou cerca de 6,52 W/kg estimados em 54min32s e Pogacar cerca de 6,44 W/kg, cruzando o topo dois segundos mais rápido. Ambos superaram os recordes atribuídos a Iban Mayo (6,35 W/kg, 2004) e a Marco Pantani (6,16 W/kg, 1994).Lanterne Rouge, 2025

De onde vem esse limiar

A régua dos watts nasceu com o técnico francês Antoine Vayer e o engenheiro Frederic Portoleau. Eles popularizaram a ideia de estimar a potência de uma subida a partir do tempo, do desnível e do peso, normalizando tudo para um ciclista padrão de 78 kg. Sobre essa escala, Vayer cravou faixas provocativas: acima de 410 watts padrão a performance seria "suspeita", acima de 430 watts "milagrosa" e acima de 450 watts "mutante". A lógica é tratar a potência como um indicador indireto de doping, sem depender do exame de sangue.

O ponto fraco dessa abordagem é justamente o que ela promete. Os modelos usados por Vayer e Portoleau exigem dados que quase nunca são medidos de verdade: área frontal do corpo, densidade do ar, resistência ao rolamento, eficiência mecânica e peso exato no dia. Nenhum desses valores vem de um powermeter público. Eles são inferidos. Por isso, cada número que circula no debate carrega uma margem de erro que raramente aparece nas manchetes.

Um estudo revisado por pares estimou a potência média de Pogacar em 442 mais ou menos 15 watts, com consumo de oxigênio de 80 mais ou menos 3 ml/kg/min sustentados por cerca de 40 minutos em seis subidas decisivas de 2024 e 2025.Berg, Journal of Science and Cycling, 2025

O que a fisiologia limpa já entrega

Antes de gritar "impossível", vale lembrar onde está a fronteira biológica real. Ciclistas de elite genuínos têm VO2max muito acima da média: o teto do pelotão masculino costuma ficar entre 70 e 85 ml/kg/min. Pogacar teria registrado 89,4 em laboratório, e há relatos de valores ainda maiores em outros atletas. Vingegaard teria marcado cerca de 97 ml/kg/min ainda júnior, e Greg LeMond é historicamente citado em torno de 92,5 no auge, embora esse número seja contestado. Sustentar 5 a 6 W/kg de forma limpa não é ficção científica para quem tem esse motor.

Além do motor, uma década de ganhos legais se acumulou. A chamada revolução do carboidrato levou os atletas de World Tour de cerca de 60 gramas por hora para 100 a 120 gramas por hora de ingestão durante as etapas, algo que a literatura associa a melhora de desempenho em provas longas. Some a isso bicicletas mais aerodinâmicas, túneis de vento, powermeters em tempo real, previsão de tempo e periodização mais fina. Estimativas do próprio meio falam em torno de 10% de ganho só nas máquinas desde os anos de EPO.

Este texto não prescreve dieta, suplemento ou qualquer protocolo de ingestão. Estratégia nutricional de atleta é individual e deve ser conduzida por profissional habilitado.

Os dois lados da linha

De um lado, os céticos. Para eles, o encolhimento do gap de 14% para 6% é grande demais para ser explicado só por comida e aerodinâmica. Se toda performance acima de 6,10 W/kg antes de 2013 tinha dono dopado, argumentam, voltar a esse território pede o mesmo ceticismo, ainda mais com práticas cinzas como monóxido de carbono e bicarbonato de sódio em pauta.

Do outro lado, quem defende a era atual. Travis Tygart, chefe da agência antidoping dos Estados Unidos, resume a tese: o viés hoje favorece o atleta limpo, é possível vencer sem trapacear. Numa subida dos Pireneus, Lance Armstrong dopado no auge fez cerca de 6 W/kg em 2004 e levou quase seis minutos a mais que Pogacar na mesma montanha. A diferença, dizem, é a soma dos ganhos legais mais controles muito mais rígidos: passaporte biológico, sistema de localização e perfis longitudinais que não existiam nos anos 1990.

O que a melhor evidência realmente diz

A resposta honesta é desconfortável para os dois lados. A fisiologia, sozinha, não prova culpa nem inocência. Os números de Pogacar e Vingegaard são plausíveis no limite biológico humano, e é exatamente por isso que continuam suspeitos: eles vivem na zona onde o talento raro e o ganho ilegal produzem resultados parecidos no papel.

Três cuidados ajudam a ler o debate sem cair no torcedor de ocasião. Primeiro, quase todo W/kg citado é estimativa, não medida, e vem com erro que muda o veredito. Segundo, comparar eras sem descontar aerodinâmica, nutrição e material infla artificialmente a suspeita. Terceiro, ausência de prova de doping não é prova de limpeza, e um número no limite humano não é, por si só, uma confissão. O que a ciência entrega, no fim, é uma faixa de incerteza, não uma sentença.

Quem prova na prática

Tadej Pogacar Ciclismo de estrada, UAE Team Emirates

No Mont Ventoux (etapa 16 do Tour de France 2025) registrou cerca de 6,44 W/kg estimados, cruzando o topo dois segundos mais rápido que Vingegaard (que fez 54min32s); o estudo de Berg (2025) estima sua potência média em 442 mais ou menos 15 watts sustentados por cerca de 40 minutos nas seis subidas decisivas de 2024 e 2025.

Jonas Vingegaard Ciclismo de estrada, Team Visma Lease a Bike

No mesmo Mont Ventoux de 2025 registrou cerca de 6,52 W/kg estimados em 54min32s, o maior valor da lista histórica da subida; teria marcado cerca de 97 ml/kg/min de VO2max ainda como júnior, leitura tão alta que o testador achou que o aparelho estava quebrado.

Marco Pantani Ciclismo de estrada, era do EPO

Seu tempo no Ventoux (6,16 W/kg estimados em 57min33s, 1994) foi superado por Pogacar e Vingegaard em 2025; suas escaladas na era do EPO servem como referência da 'era do doping comprovado'.

Perguntas frequentes

O que significa 6,10 W/kg no ciclismo?

É a potência estimada dividida pelo peso do atleta, cerca de 6,10 watts por quilo sustentados por 30 a 40 minutos de subida. Antes de 2013, toda escalada do Tour acima desse patamar pertencia a um ciclista depois confirmado como dopado, o que transformou o número em uma linha simbólica entre o plausível e o suspeito.

Os números de Pogacar e Vingegaard provam doping?

Não. A fisiologia sozinha não prova culpa nem inocência. Os valores estão no limite biológico humano, o que os torna plausíveis para atletas com VO2max excepcional, mas também os mantém na zona de suspeita. Ausência de prova de doping não é prova de limpeza, e um número no limite não é, por si só, uma confissão.

Por que esses watts são apenas estimativas?

Porque os modelos de Vayer e Portoleau precisam de dados que quase nunca são medidos de verdade, como área frontal do corpo, densidade do ar, resistência ao rolamento e peso exato no dia. Esses valores são inferidos, então cada W/kg citado carrega uma margem de erro que raramente aparece nas manchetes.

O que mudou de forma legal desde a era do EPO?

Muita coisa. A revolução do carboidrato levou a ingestão de cerca de 60 para 100 a 120 gramas por hora, e vieram bicicletas mais aerodinâmicas, túneis de vento, powermeters em tempo real e periodização mais fina. Estimativas do meio falam em torno de 10% de ganho só nas máquinas, além de controles antidoping muito mais rígidos.

Qual VO2max esses ciclistas têm?

Ciclistas de elite ficam entre 70 e 85 ml/kg/min. Pogacar teria registrado 89,4 em laboratório, Vingegaard cerca de 97 ainda júnior e Greg LeMond é historicamente citado em torno de 92,5, embora esse número seja contestado. Sustentar 5 a 6 W/kg de forma limpa é possível para quem tem esse motor.

Referências

  1. Berg, O. K. (2025). Tour de Physiology: The Exceptional Power Outputs and VO2 of Climbing in the Tour de France. Journal of Science and Cycling, 14(1). DOI 10.28985/1425.jsc.15
  2. BikeRadar (2025). 442 watts for 40 minutes: Study estimates Tadej Pogacar's power output on Tour de France climbs.
  3. Lanterne Rouge (2025). Historical Performances of Vingegaard and Pogacar on Mont Ventoux, Tour de France 2025 Stage 16.
  4. Chronoswatts (Portoleau e Vayer). Simulador de potência: faixas suspeita 410W, milagrosa 430W, mutante 450W (padrão 78kg).
  5. Velo / Outside (2025). Breaking 120: como o hiper-abastecimento de carboidrato de até 120g/h remodela o ciclismo profissional.
  6. Beyond Watts/Kg: Cycling's Eternal Ghost of Doping (2025), Medium.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).