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Corredor numa crista de montanha em ritmo aeróbio tranquilo
Foto: Unsplash

Técnica de Corrida

Método MAF: treinar em baixa frequência cardíaca funciona?

O método Maffetone propõe construir toda a base aeróbica correndo devagar, com a frequência cardíaca limitada pela fórmula 180 menos a idade. A ideia é sedutora e tem casos famosos por trás, mas o que a ciência realmente sustenta e onde a fórmula falha?

7 min de leitura
180 menos idade Teto de FC aeróbica na fórmula MAF, ajustado por saúde e histórico de treino Maffetone, fórmula 180
~80% Do volume de treino em baixa intensidade entre atletas de elite de endurance Seiler, início dos anos 2000
8:15 para 5:20 min/milha Ganho de ritmo de Mark Allen na mesma FC de 155 bpm após cerca de um ano de base aeróbica Relato Mark Allen e Maffetone

O que é o método MAF

MAF significa Maximum Aerobic Function, ou função aeróbica máxima. O termo foi criado pelo profissional norte-americano Phil Maffetone, que desenvolveu o método ao longo dos anos 1980 observando que muitos atletas de endurance viviam doentes, lesionados ou estagnados por treinar forte demais na maior parte do tempo.

A proposta central é simples e um tanto contraintuitiva: passar a maior parte do treino correndo devagar, dentro de uma faixa de frequência cardíaca (FC) baixa o suficiente para o metabolismo aeróbico predominar. A promessa é que, com o tempo, você fica mais rápido no mesmo esforço, queimando gordura com mais eficiência e sem acumular o estresse que leva a lesão e overtraining.

A fórmula 180 menos a idade

O coração do método é a fórmula 180. Você calcula seu teto de FC aeróbica assim: pegue 180, subtraia sua idade e ajuste conforme seu histórico.

Fórmula MAF 180: 180 menos idade, com ajustes: +5 para quem tem dois anos ou mais de treino consistente e progresso documentado; menos 5 para quem está lesionado, com histórico irregular ou sem evolução; menos 10 para quem se recupera de doença grave, usa medicação contínua ou está em overtraining crônico.

Maffetone, fórmula 180

Um corredor de 40 anos com treino consistente teria um teto de 140 batimentos por minuto. Todo o treino de base é feito naquela FC ou abaixo dela. Nada de terminar o rodapé ofegante. Se o batimento sobe, você reduz o ritmo, ou até caminha, para não passar do limite.

O teste MAF e o caso Mark Allen

O método usa um teste de acompanhamento: correr uma distância fixa (por exemplo, poucos quilômetros em pista) sempre na FC de MAF e anotar o ritmo. Se ao longo dos meses o ritmo no mesmo batimento melhora, sua base aeróbica está crescendo. Se piora, algo está errado com recuperação, estresse ou estímulo.

O caso mais citado é o de Mark Allen, seis vezes campeão mundial de Ironman. Ao começar a trabalhar com Maffetone, ele descobriu que na FC alvo de 155 bpm não conseguia correr mais rápido que cerca de 8:15 por milha. Um ano treinando só em intensidade aeróbica e, no mesmo batimento, o ritmo caiu para cerca de 5:20 por milha.

Relato Mark Allen e Maffetone

É uma história poderosa. Vale lembrar que ela é um relato individual, de um dos maiores triatletas da história, e não um estudo controlado. Ainda assim, ilustra bem o princípio: melhorar o ritmo sem elevar o esforço fisiológico.

O que a evidência diz sobre treino de baixa intensidade

Aqui está a parte forte do método. A base científica de que a maior parte do volume deve ser leve é sólida e vem de fora do universo Maffetone. O fisiologista Stephen Seiler, no início dos anos 2000, analisou como atletas de elite de vários esportes de endurance realmente treinam e encontrou um padrão repetido.

Atletas de elite de endurance fazem cerca de 80% do volume em baixa intensidade (abaixo do primeiro limiar) e cerca de 20% em intensidade moderada a alta. É a chamada distribuição polarizada, ou regra 80/20.

Seiler, início dos anos 2000

Revisões sistemáticas mais recentes reforçam que o modelo polarizado tende a melhorar variáveis como o VO2 pico, ainda que o tamanho do efeito seja modesto e mais claro em atletas já bem treinados. Ou seja: a filosofia de correr muito e devagar tem respaldo. Onde os estudos convergem é no volume leve como base, não necessariamente na fórmula 180 como o jeito certo de definir esse "devagar".

Onde a fórmula 180 encontra seus limites

O ponto fraco do MAF não é a ideia de treinar leve, é a régua única baseada só na idade. Duas pessoas da mesma idade podem ter fisiologias muito diferentes.

  • A fórmula ignora a FC máxima real e os limiares individuais de lactato. Para alguns, 180 menos a idade cai bem abaixo do primeiro limiar e vira um esforço realmente fácil. Para outros, o mesmo número já está perto ou acima do segundo limiar, e aí não é mais treino aeróbico de base.
  • Ela é pouco individualizada nos extremos: os próprios defensores reconhecem que atletas acima de 65 anos podem precisar de ajuste adicional.
  • Os autores do método, em revisão publicada em periódico científico, admitem que as relações teóricas entre a FC de MAF e a queima máxima de gordura ainda precisam ser verificadas cientificamente.

Na revisão de Maffetone e Laursen (2020), os próprios autores escrevem que a abordagem MAF é útil para praticantes, mas não substitui teste laboratorial e que suas relações fisiológicas precisam de validação científica.

Maffetone e Laursen, 2020, Frontiers in Physiology

Prós, contras e para quem faz sentido

A favor: o método é simples, barato (basta um monitor de FC), reduz o risco de treinar forte todo dia e ensina o iniciante a segurar o ritmo, que é justamente o erro mais comum de quem começa. O princípio de fundo, muito volume leve, está alinhado com a melhor evidência.

Contra: a fórmula pode subestimar ou superestimar seu teto real. Correr sempre abaixo de um limite pode ser frustrante no início, quando você precisa caminhar para não estourar a FC, e um plano só aeróbico, sem nenhum estímulo intenso, pode deixar performance na mesa para atletas mais avançados que se beneficiam daquele 20% forte.

O MAF é uma ferramenta de organização de treino, não um diagnóstico. A fórmula 180 é um ponto de partida útil, mas se você tem condição de saúde, usa medicação ou quer precisão, a evidência aponta que um teste de limiares com um profissional de educação física ou fisiologia dá uma faixa muito mais confiável que uma conta de cabeça.

Quem prova na prática

Mark Allen Seis vezes campeão mundial de Ironman

Trabalhou com Maffetone a partir dos anos 1980. Melhorou seu ritmo de cerca de 8:15 para cerca de 5:20 por milha na mesma FC de 155 bpm após cerca de um ano de treino aeróbico de base, e chegou a emendar uma sequência de 21 vitórias entre 1988 e 1990.

Phil Maffetone Criador do método MAF e da fórmula 180

Profissional holístico e maratonista norte-americano, desenvolveu o método ao longo dos anos 1980 na prática clínica, focado em reduzir lesão e overtraining. Coautor da revisão de 2020 na Frontiers in Physiology que reconhece a necessidade de validação científica adicional.

Stephen Seiler Fisiologista do exercício, pesquisa em distribuição de intensidade

No início dos anos 2000 documentou que atletas de elite de endurance fazem cerca de 80% do volume em baixa intensidade, dando base científica independente ao princípio de treinar muito e devagar.

Perguntas frequentes

Como calcular minha FC de MAF pela fórmula 180?

Subtraia sua idade de 180 e ajuste conforme seu histórico: +5 se você tem dois anos ou mais de treino consistente e progresso documentado; menos 5 se está lesionado, com histórico irregular ou sem evolução; menos 10 se se recupera de doença grave, usa medicação contínua ou está em overtraining crônico. Atletas acima de 65 anos podem precisar de ajuste adicional. Todo o treino de base fica naquela FC ou abaixo dela.

O método MAF realmente funciona ou é só marketing?

O princípio central, correr a maior parte do volume em baixa intensidade, tem respaldo científico sólido e independente de Maffetone, principalmente nos estudos de Stephen Seiler sobre a distribuição polarizada 80/20 em atletas de elite. O que carece de validação é a fórmula 180 como forma exata de definir esse ritmo leve, algo que os próprios autores admitem em revisão de 2020.

A fórmula 180 menos a idade serve para todo mundo?

Não com precisão. Ela ignora sua FC máxima real e seus limiares individuais de lactato. Para alguns, o resultado cai bem abaixo do primeiro limiar e vira um esforço fácil; para outros, o mesmo número já fica perto do segundo limiar. Duas pessoas da mesma idade podem ter fisiologias muito diferentes, então a fórmula é um ponto de partida, não uma verdade individual.

Quem foi Mark Allen e o que o caso dele prova?

Mark Allen é seis vezes campeão mundial de Ironman. Ao treinar com Maffetone, seu ritmo na mesma FC de 155 bpm melhorou de cerca de 8:15 para cerca de 5:20 por milha ao longo de cerca de um ano. É um relato individual poderoso, não um estudo controlado, mas ilustra bem o princípio de ganhar velocidade sem elevar o esforço fisiológico.

Posso treinar só no MAF e ignorar treinos intensos?

Depende do seu nível. Para iniciantes, segurar o ritmo já resolve o erro mais comum. Para atletas mais avançados, um plano só aeróbico pode deixar performance na mesa, já que a evidência da distribuição polarizada mostra que aqueles 20% de intensidade alta também contribuem para a adaptação. O ideal é usar o volume leve como base e reservar espaço para estímulos intensos quando fizer sentido.

Referências

  1. Maffetone e Laursen (2020). Maximum Aerobic Function: Clinical Relevance, Physiological Underpinnings, and Practical Application. Frontiers in Physiology
  2. Mark Allen (triathlete) - Wikipedia
  3. How Mark Allen Improved his Speed by Slowing down with a Heart Rate Monitor - Dr. Nick's Running Blog
  4. The MAF Method (Maffetone): How It Works + The 180-Formula Truth - Marathon Handbook
  5. Complete Guide to Polarized Training with Dr. Stephen Seiler - Fast Talk Labs
  6. The Effect of Polarized Training Intensity Distribution on VO2max and Work Economy: A Systematic Review - PMC

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).