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Pernas de velocistas nas raias da pista, treino intervalado
Foto: Unsplash

Técnica de Corrida

Fartlek, tempo, intervalado e tiro: para que serve cada treino

Longão, contínuo, fartlek, tempo, intervalado e tiro não são a mesma coisa com nomes diferentes. Cada um mira uma adaptação fisiológica específica. Entenda o objetivo de cada treino e como combiná-los na semana com base na evidência.

6 min de leitura
80/20 Proporção de volume em intensidade baixa (cerca de 80 por cento) e alta (cerca de 20 por cento) observada em atletas de elite de resistência Seiler & Kjerland, 2006
7min51s Tempo acumulado no VO2máx com tiros intermitentes no ritmo de VO2máx, contra apenas 2min42s em esforço contínuo intenso Billat et al., 2000
1937 Ano em que Gösta Holmér criou o fartlek para a equipe sueca de cross-country Britannica

Por que existem tantos tipos de treino

Correr parece simples, mas o corpo se adapta a estímulos diferentes de formas diferentes. Um rodízio leve de uma hora e uma série de tiros de 400 metros trabalham sistemas fisiológicos distintos. Por isso os planos de corrida misturam vários tipos de treino: cada um empurra uma alavanca específica da sua fisiologia, e a soma delas é o que faz você melhorar.

A evidência mostra que atletas de elite não correm tudo forte nem tudo leve. Eles distribuem o volume entre muito fácil e ocasionalmente muito intenso, evitando ficar sempre na zona intermediária. Antes de detalhar cada treino, vale ter em mente essa lógica de distribuição.

Em atletas de resistência de alto nível, cerca de 80 por cento do volume de treino é feito em baixa intensidade e apenas cerca de 20 por cento em intensidade alta, com pouco tempo na zona do meio.Seiler & Kjerland, 2006

Longão e contínuo: a base aeróbia

O treino contínuo é o rodízio em ritmo confortável, aquele em que dá para conversar sem ofegar. O longão é a versão mais extensa desse mesmo esforço. Parecem os treinos menos glamourosos, mas são a fundação de tudo. Eles desenvolvem a base aeróbia, aumentam a densidade de capilares e mitocôndrias no músculo e melhoram a economia de corrida.

Eliud Kipchoge, bicampeão olímpico da maratona, corre a maior parte do treino nesse ritmo leve, às vezes cerca de dois minutos por quilômetro mais lento que o ritmo de prova. A premissa que ele repete é direta: fica-se mais rápido correndo devagar na maior parte do tempo.

Fartlek: jogo de velocidade

Fartlek é uma palavra sueca que significa jogo de velocidade. Foi criado em 1937 pelo técnico Gösta Holmér para reanimar a equipe sueca de cross-country, que vinha perdendo para os finlandeses. A ideia é um treino contínuo em que você alterna trechos rápidos e trechos leves de forma livre, muitas vezes guiado por referências do terreno, como correr forte até o próximo poste e soltar até a esquina.

O fartlek fica entre o contínuo e o intervalado. Ele estimula a troca de ritmo e trabalha faixas de intensidade variadas de um jeito menos rígido, o que também ajuda no aspecto psicológico e combate a monotonia dos treinos.

Tempo e limiar: sustentar o ritmo forte

O treino de tempo, ou de limiar, é rodado em um ritmo forte porém sustentável, próximo do que você aguentaria por cerca de uma hora. Não é um esforço quase máximo, mas também não é confortável: é aquele ponto em que dá para dizer só poucas palavras de cada vez. O objetivo é ensinar o corpo a lidar melhor com o acúmulo de lactato e a sustentar ritmos rápidos por mais tempo.

Na prática, o limiar costuma aparecer em blocos contínuos de 20 a 40 minutos nesse ritmo, ou em séries mais longas com pausas curtas. É um dos treinos que mais se traduz em ganho de desempenho para provas de rua, do 10 km à maratona.

Intervalado: elevar o teto aeróbio

O intervalado clássico de VO2máx usa esforços intensos alternados com períodos de recuperação. A ideia é passar bastante tempo perto da captação máxima de oxigênio, algo difícil de sustentar em um esforço contínuo. Em geral os tiros duram de alguns minutos, com recuperação parecida entre eles, o que permite repetir o estímulo forte várias vezes na mesma sessão.

Um estudo clássico de Billat e colegas mostrou por que o formato intermitente funciona tão bem: correndo em tiros no ritmo associado ao VO2máx, os corredores acumularam quase 8 minutos no VO2máx, contra menos de 3 minutos em um esforço contínuo intenso. Fracionar o esforço permite ficar mais tempo no teto aeróbio.

Com tiros intermitentes no ritmo de VO2máx, os corredores permaneceram em média 7 minutos e 51 segundos no VO2máx, contra apenas 2 minutos e 42 segundos em um esforço contínuo intenso.Billat et al., 2000

Tiro e sprint: velocidade e potência

Os tiros mais curtos, ou sprints, são esforços de poucos segundos em intensidade quase máxima. Aqui o foco não é o sistema aeróbio, e sim a velocidade pura, a potência e a mecânica de corrida. Eles recrutam fibras rápidas, melhoram a coordenação e dão aquela marcha extra para o final de uma prova.

É importante não confundir tiro com intervalado de VO2máx: são estímulos diferentes. O sprint trabalha o motor de força e velocidade, com recuperações longas entre as repetições; o intervalado longo trabalha o teto de oxigênio. Muitos planos incluem alguns tiros curtos, os chamados educativos ou strides, mesmo em fases de base.

O método por trás do rótulo

Nomes à parte, o que importa é o estímulo. Jakob Ingebrigtsen, campeão olímpico dos 5000m em Paris 2024, popularizou o método norueguês de duplo limiar, com dois treinos de limiar no mesmo dia e a intensidade controlada por medição de lactato. É um exemplo de como o trabalho de limiar pode ser dosado com precisão para acumular volume de qualidade sem estourar a recuperação.

Como combinar tudo na semana

Não existe fórmula única, mas a lógica da evidência ajuda. A maior parte dos dias fica em ritmo leve, somando um longão, e apenas um ou dois dias ficam reservados para trabalho forte, seja tempo, intervalado ou fartlek. Entre os dias fortes, pelo menos um dia leve para recuperar. Essa distribuição polarizada, com muito fácil e pouco intenso, é justamente o que se observa em atletas de elite.

Volume e intensidade precisam ser calibrados ao seu momento, histórico e objetivo. Antes de aumentar a carga ou incluir treinos intensos, vale conversar com um profissional de educação física.

Quem prova na prática

Eliud Kipchoge Bicampeão olímpico da maratona (Rio 2016, Tóquio 2020) e ex-recordista mundial da distância

Corre a maior parte do treino em ritmo fácil e conversável, muitas vezes cerca de dois minutos por quilômetro mais lento que o ritmo de prova. A premissa que ele repete é que se fica mais rápido correndo devagar na maior parte do tempo.

Jakob Ingebrigtsen Campeão olímpico dos 5000m (Paris 2024), campeão mundial e recordista mundial de várias provas de fundo e meio-fundo

Popularizou o método norueguês de duplo limiar: dois treinos de limiar no mesmo dia, com a intensidade controlada por medição de lactato no sangue para não ultrapassar a zona planejada.

Gösta Holmér Técnico sueco de cross-country, criador do fartlek em 1937

Criou o fartlek (jogo de velocidade, em sueco) para reanimar a equipe sueca de fundo, que vinha perdendo para os finlandeses. Alternava trechos longos e contínuos com tiros acima do ritmo de prova.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre treino de tempo (limiar) e intervalado de VO2máx?

O treino de tempo, ou de limiar, é rodado em um ritmo forte porém sustentável, próximo do que você aguentaria por cerca de uma hora, e treina o corpo a lidar melhor com o acúmulo de lactato. Já o intervalado de VO2máx usa tiros mais curtos e intensos, em geral de alguns minutos cada, que empurram a captação de oxigênio para perto do máximo. O tempo melhora a resistência ao ritmo forte; o intervalado eleva o teto aeróbio.

O que significa fartlek e para que ele serve?

Fartlek é uma palavra sueca que quer dizer jogo de velocidade. É um treino contínuo em que você alterna trechos rápidos e trechos leves de forma livre, muitas vezes guiado por referências do terreno, como postes ou subidas. Serve para desenvolver a troca de ritmo de maneira menos rígida que o intervalado, misturando estímulo aeróbio e picos de intensidade.

Por que a maior parte do treino de corrida deve ser em ritmo leve?

Estudos com atletas de elite sugerem que cerca de 80 por cento do volume é feito em baixa intensidade e apenas cerca de 20 por cento em alta (Seiler & Kjerland, 2006). O ritmo leve constrói a base aeróbia, melhora a economia de corrida e permite recuperar para os dias fortes, sem acumular fadiga em excesso.

Qual a diferença entre tiro (sprint) e intervalado?

Tiros ou sprints são esforços muito curtos e quase máximos, de poucos segundos, com foco em velocidade, potência e mecânica. O intervalado de VO2máx usa esforços mais longos, de alguns minutos, voltados à capacidade aeróbia máxima. São estímulos diferentes: um trabalha o motor de força e velocidade, o outro o teto de oxigênio.

Como montar a semana combinando esses treinos?

Um padrão comum na evidência é ter a maioria dos dias em ritmo leve mais um longão, e reservar um ou dois dias para trabalho forte (tempo, intervalado ou fartlek), com pelo menos um dia leve entre eles. A melhor combinação depende do seu momento, histórico e objetivo, então vale conversar com um profissional de educação física para calibrar volume e intensidade.

Referências

  1. Seiler, S. & Kjerland, G. O. (2006). Quantifying training intensity distribution in elite endurance athletes: is there evidence for an optimal distribution? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 16(1), 49-56.
  2. Billat, V. et al. (2000). Intermittent runs at the velocity associated with maximal oxygen uptake enables subjects to remain at maximal oxygen uptake for a longer time than intense but submaximal runs. European Journal of Applied Physiology, 81(3), 188-196.
  3. Stöggl, T. & Sperlich, B. (2014). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high intensity, or high volume training. Frontiers in Physiology, 5, 33.
  4. Encyclopaedia Britannica. Fartlek | Interval, Speed & Endurance training.
  5. Olympics.com (2023). Eliud Kipchoge revolutionary training methods: how the champion slow runs made him the fastest.
  6. Fast Talk Laboratories. Understanding the Norwegian Training Method (duplo limiar de Ingebrigtsen).

Conteúdo educativo. Não substitui consulta com nutricionista ou médico. O plano alimentar individualizado é ato privativo do nutricionista (Lei 8.234/91). Fontes citadas com link para verificação. Imagens sob Licença Unsplash (uso livre, inclusive comercial).